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A crueldade com questões sociais não conduz a lugar nenhum

Reunião entre empresários, presidente e ministro da economia revelam o mesmo de sempre: governo federal não sabe o que fazer para o futuro do Brasil

| ACidadeON/Araraquara

Na quinta feira, 7 de maio, o Presidente da República e determinado grupo se dirigiram à sede do Supremo Tribunal Federal, STF. Essa ação ocorreu, segundo relatos, de forma inesperada e espontânea. O grupo com o qual o Presidente fez essa andança estava participando de reunião com ele que fora agendada há algum tempo, no prazo de semanas. Esse grupo era composto por associações corporativas empresariais do setor industrial do país. O motivo original da reunião previa ouvir do ministro da economia quais seriam as potenciais ações para o pós-pandemia. 

Tal preocupação é importante e plena de justificativas. O pensamento estratégico se baseia em compor cenários permanentemente para que os potenciais futuros sejam igualmente avaliados. Com isso é possível em certa medida antecipar-se à situações desfavoráveis. Exemplo rápido está na fábula da cigarra e das formigas. O grupo de insetos preparou-se para a escassez que sempre ocorre em determinada época do ano. O outro inseto ignorou o que a natureza reserva com regularidade. Em algumas versões as formigas são solidárias e se beneficiam da alegria da cigarra. Em outras, mais cruéis, a cigarra morre ao relento, com frio e fome. 

Para evitar que ao final da pandemia os vulneráveis se tornem inexistentes no rearranjo produtivo internacional, o melhor é articular ações potenciais desde já. Como ninguém consegue com segurança, no momento, afirmar quando será esse fim da desorganização mundial do processo produtivo, há tempo, talvez de sobra, para planejar. Essa seria uma primeira reunião de muitas que necessariamente devam ocorrer. 

O que aconteceu, porém, foi diferente do esperado. Após a explanação dos representantes da indústria dos índices de queda na casa de dois dígitos de seus setores produtivos a um presidente com olhar fixo no vazio e um ministro que nada tinha a apresentar de concreto, pois o auditório não era propício a stand-up, a alternativa encontrada foi: "vamos ao STF"! 

A ida ao STF permitiu que visões patéticas e cruéis de mundo fossem externadas, quando das frases proferidas em que pessoas jurídicas são equivalentes à pessoas físicas e a de que "minha vida é o trabalho" para concluir que "a família e todo o resto estão em segundo plano". Tal catarse maléfica sugere haver corpos possuídos por entidades sombrias. Para piorar, observa-se que há gente em postos chaves de nossos destinos cuja índole desdenha até daqueles que lhe são próximos e não entendem que há diferenças substantivas entre um papel de cartório e seres humanos. De tal grupo, o que vierem a propor há que no mínimo suspeitar. É o mesmo que a dona aranha convidando gentilmente a mosca para um chá em sua teia. 

O evento também reafirmou que o governo federal move-se pela insana cruzada contra o isolamento social e tem nessa sua exclusiva prioridade. Não há, todavia, motivo para de fato ser contra o distanciamento físico entre pessoas, caso haja honesta intenção em proteger vidas. A premissa básica do afastamento é muito simples. Vírus buscam permanentemente novos hospedeiros. Quando dentro desses se alimentam ao limite do que podem obter e tendem a matar a quem os abriga. Sobrevivem e permanecem existindo por meio da constante nova infecção. Caso, porém, não haja a probabilidade de encontrarem novos corpos, tende a cair a probabilidade de sua sobrevida. Distanciar-se de pessoas infectadas é a melhor garantia de que o vírus não terá como continuar vivo. A transmissibilidade, portanto, é o elemento chave a ser enfrentado. 

Numa situação de pandemia, em que as infeções multiplicam-se no mundo todo e em taxas crescentes, o prazo de tempo torna-se a variável crítica. Quanto menor for o número de contagiados, mais tempo haverá para que a alternativa, remédio ou vacina, seja encontrada para deter a pandemia e, também, para que o benefício da alternativa seja aproveitado. Ao que tudo indica remédios ou vacinas exigem prazos de mais de anos até para serem amplamente utilizados em uma população de bilhões de seres humanos. Esse vírus, ademais, afirmam os que entendem, é muito peculiar. 

No meio dessa confusão de muito barulho pela agitação de robôs, de tolos ostentando de forma desrespeitosa a bandeira de outros países, sabe-se lá por quê, e de agressividade descontrolada, há a dura realidade dos excluídos. A Instituição Fiscal Independente, IFI, vinculada ao Senado Federal, apresentou o estudo, por meio da Nota Técnica de nº 42, de 7 de maio, do impacto nas contas da União da despesa com o auxílio emergencial de R$600,00 para certo grupo de indivíduos e de R$1.200,00 para mulheres chefe de família. Na projeção inicial esse programa iria gerar a despesa de R$ 80 bilhões. O estudo revelou no entanto que o potencial de despesa aumentou para R$154,4 bilhões. O total de beneficiários anterior era de 19 milhões de famílias pertencentes ao Bolsa Família. Com o programa o número de beneficiários (famílias e indivíduos) poderá ir a 79 milhões. 

Esse Brasil real, vulnerável e excluído antes invisível tornou-se nítido, com endereço, nome, parentes, número de telefone e mais fácil de localizar e atender. Será que para aqueles que pensam a vida como algo menor fará alguma diferença a presença inquestionável de pobres? A sua volúpia por ganhos e interesses pessoais será abalada? Provavelmente não. Por isso o melhor é pensar desde já alternativas democráticas para que nunca mais tenhamos que ver em posição de destaque e mando carrancas, gárgulas, delírios e torpes confusões.

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