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Para essa semana o time do Multipli_Cidade apresenta os olhares a respeito das queimadas na Amazônia

| ACidadeON/Araraquara -


  • O futuro da Floresta Amazônica está em nossas mãos!
Para essa semana o time do Multipli_Cidade apresenta os olhares da socióloga Alessandra Nascimento (UNESP) e do colunista da CBN/Araraquara e do portal A CidadeOn, o cientista político Bruno Silva (UNICAMP), ambos pesquisadores do Laboratório de Política e Governo (UNESP), a respeito das queimadas na Amazônia e os seus desdobramentos na política nacional:     

   "A Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais instituída pelo Decreto n.º 6.040/2007 caracteriza as comunidades tradicionais como "grupos que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição". De acordo com essa definição, a ideia de território vai além do espaço físico indispensável para o acesso à terra e aos recursos naturais necessários para preservar os sistemas produtivos destas comunidades e os saberes tradicionais, pois o território tem, sobretudo, importância histórica e cultural; ou seja, é o lugar da preservação dos fatos históricos e manifestações culturais que mantêm viva a memória coletiva desses grupos. Sendo assim, o território é determinante para reforçar a sua origem e sua reprodução social. É a partir desta ligação com a memória cultural e com a ancestralidade que se encontra a essência dos grupos tradicionais, sua visão do mundo, bem como os modos de viver. Logo, o volume dos desmatamentos e queimadas, que tem ocorrido com maior intensidade em 2019, tem colocado em risco a existência das populações indígenas e comunidades quilombolas da região amazônica. Mas também tem afetado diretamente a saúde pública em outros lugares do país, fato este que pode ser bem evidenciado com a chuva negra que caiu sobre São Paulo. Essas populações resistem e têm muito a nos ensinar sobre utilização e preservação do meio ambiente". Alessandra Nascimento, socióloga.  

    "As queimadas na região amazônica são problemáticas para o país há décadas. Mas o atual debate levantado a respeito da questão chegou na opinião pública de maneira distorcida, com ênfase maior nos pronunciamentos combativos de Bolsonaro e em suas rusgas com Macron ao invés de ocorrer em função dos problemas de ordem econômica gerados, as consequências para as milhares de pessoas residentes na região e, fundamentalmente, os danos ambientais (alguns deles com possibilidade de reversão às custas de bilhões de reais apenas). Os dados do INPE são precisos em relação a isso. Desde os anos de 1980 as medições têm ocorrido sistematicamente em relação às queimadas na região. No início da década de 2000 o total da área queimada na floresta esteve em diferentes anos acima dos 20 mil km². Esses números passam a cair apenas na última década, principalmente a partir de 2010 em diante, ficando abaixo dos 10 mil km².  
    Isso não resulta de uma crise de consciência por parte daqueles que mais tem devastado a Amazônia: madeireiros ilegais, grileiros, agricultores e pecuaristas em áreas de fronteira da floresta. Trata-se de resultado da extensa e moderna legislação ambiental que o Brasil possui e da intensificação na fiscalização. Ainda assim a quantidade de pessoas disponíveis para acompanhar de perto a Floresta é descabida: dados de 2017 apontavam que possuíamos apenas um fiscal a cada 470 km² em parques e florestas. 
    Desse modo, embora o atual presidente não seja o único responsável por essa situação ele é a principal figura com poder suficiente para coordenar ações com outros entes federativos, captar ajuda internacional e decidir a respeito de qual modelo adotar em relação à exploração da Amazônia. Se continuarmos com práticas extremamente predatórias, adeus para as futuras gerações. Os milhões de hoje serão "caraminguás" amanhã. Já se optarmos por adotar uma economia sustentável, capaz de ampliar a geração de empregos, sem criminalização gratuita de ONGs e com planos articulados de desenvolvimento regional nos colocaremos na dianteira do desenvolvimento econômico global". Bruno Silva, cientista político.