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A mediocridade é, por natureza, antipolítica, porque ela se compraz na simplicidade, nas soluções fáceis

| ACidadeON/Araraquara

  
Temos lidado com o outro de modo virulento?
 Nessa semana o Multipli_Cidade apresenta o olhar do cientista social Gabriel Henrique Burnatelli de Antonio, professor do IFSP-SP e pesquisador do Laboratório de Política e Governo (UNESP) a respeito da mediocridade presente em nossa política e, principalmente, nas relações entre indivíduos com preferências distintas, visões de mundo antagônicas e ideologias diferentes. Confira!

    "Nada mais trivial, hoje em dia, do que a mediocridade. Ela, que não tem nada a ver com a phronesis aristotélica, não é sábia, nem prática. Corteja as emoções mais primitivas como um beduíno que, sedento, se oferece ao regato. Saboreia o instante e o triunfo como se a vida emulasse inesgotavelmente uma partida de futebol. Trafega por entre as opiniões como se as palavras servissem apenas à sobranceria dos que pensam igual.     

    A mediocridade é, por natureza, antipolítica, porque ela se compraz na simplicidade, nas soluções fáceis, no curto prazo. Ela escarnece a inteligência, porque a razão não se presta à obediência imediata, não coonesta a autoridade da força, não poupa demagogos, profetas e tiranos.  

    Se você, leitor, se sente irritado com discussões espinhosas, difíceis, polêmicas, e logo sente a necessidade de apelar à virulência, como, por exemplo, quando encontra um rótulo pejorativo para desqualificar seu interlocutor, ou ainda, quando se arvora a ameaçar pessoas com opiniões divergentes ou a festejar a destrutividade do senso comum ora prevalecente, saiba que, como diria Ortega y Gasset, ilustre intelectual espanhol da primeira metade do século XX, você depõe contra sua própria humanidade, pois se recusa a ver a vida para além das circunstâncias que o molduram, sujeitando-se ao entorno confortável das opiniões familiares, mormente àquelas que, atualmente, circulam nas novas comunidades virtuais, articuladas em redes (anti) sociais e sua plêiade de desinformação e ignorância.  

    O agir político, sobretudo nas democracias, depende da junção cultivada e inteligente do mundo dos afetos com o mundo da razão. A identificação ideológica (portanto, simpática a um valor) nos projeta para a vida pública em função de um propósito, um sentido para o qual construímos símbolos que organizam nosso mundo particular e em razão do qual buscamos construir um mundo partilhado. Todavia, os procedimentos, ou técnicas de discussão e formulação de escolhas públicas, são o que permitem às ideias e aos valores parciais, circunscritos a uma camada específica de opiniões da sociedade, o ingresso no mundo da política, da ação humana concertada, dialogada, que prioriza a solução negociada e pacífica dos conflitos de interesse e de visões de mundo, buscando, acima de tudo, a que possamos construir um destino comum em meio à diversidade e à complexidade das formas de vida e experiência humanas.  

    A mediocridade não é tão somente um atributo pessoal; todavia, ela não pode ser explicada exclusivamente pelo momento político ou pelas circunstâncias sociais. Há um sórdido prazer que inflexiona pessoas outrora educadas para o comportamento de manada e a glorificação da mediocridade. A leveza, a ausência de escrúpulos e de responsabilização individual estão se convertendo em cultura e, como diria Milan Kundera, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve que o ar, e que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. E você, leitor, o quão (in) suportável é sua leveza?" 

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