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A (des)esperança chilena

Líderes antissistema figuram entre as primeiras escolhas dos eleitores na nova configuração política mundial

| ACidadeON/Araraquara

O Chile do futebol era alegria, já o Chile da crise política...
Nessa semana, o Multipli_Cidade apresenta as visões do pesquisador do Laboratório de Política e Governo, o cientista político Rafael Tauil (docente na Escola Paulista de Direito) e da mestranda em estudos organizacionais na FGV, Carolina Araújo. Eles trazem à tona uma importante reflexão a respeito da crise política no Chile. Confira: 
 
"Vejo, infelizmente, com receio as manifestações anti-establishment no Chile que, ao que parece, vêm animando e dando esperança às esquerdas ao redor do mundo, como se fosse, de fato, um movimento político de emancipação da classe trabalhadora destinado a desaguar num projeto político de longo prazo das forças progressistas chilenas. Sabemos bem que manifestações de caráter voluntarista e que negam a política em alguma medida dão o ensejo necessário ao sequestro de pautas difusas (e de forte energia proveniente da insatisfação social) por lideranças autoritárias salvacionistas. Pelo menos é a isto que vimos assistido na maioria dos países do mundo que vêm sendo acometidos por uma espécie de fenômeno neopopulista. Líderes antissistema figuram entre as primeiras escolhas dos eleitores na nova configuração política mundial. Novos elementos aparecem, de modo que seja necessário renovar o conceito de populismo para compreender de forma precisa estes eventos contemporâneos sob o risco caso não o façamos de incorrermos em certos anacronismos interpretativos. De todo modo, esta chave compreensiva contribui bastante para a prevenção de um desfecho trágico neste cenário, uma vez que as pautas difusas apresentadas pela população chilena, aliadas à negação das instituições políticas e ao caráter autoritário da cultura política chilena podem entregar ao povo daquele país uma resposta de caráter autoritário-populista e de extrema-direita, capaz de empurrar Piñera para o centro do espectro político chileno num novo rearranjo ideológico de forças". Rafael Tauil, cientista político.  
  
"É preciso cotejar e procurar certas semelhanças (e claro diferenças) com aquilo que aconteceu no Brasil em 2013. Lá como aqui, o ovo da serpente a insatisfação da população com a desigualdade, com o establishment político, com a precarização das condições de vida vinha sendo chocado há muito tempo. Ao contrário do que imaginam os entusiastas do neoliberalismo chileno, as condições de vida da população chilena melhoraram de certa forma, mas não necessariamente aprimorou-se sua qualidade de vida. A socióloga Kathya Araujo em recente entrevista à BBC* ilustrou de forma clara este paradoxo, utilizando o metrô chileno como metáfora. Segundo Araujo, o sistema metroviário do país é um dos mais modernos da América Latina, mas é justamente onde o povo é "tratado como animal" nas horas de pico. Percebe-se assim que melhoraram, por exemplo, as condições de trabalho e que as pessoas podem trabalhar em edifícios modernos, em escritórios confortáveis, mas não auferem, por outro lado, melhoras salariais ou expansão no poder de compra. Além disto, por perceberem melhorias em algumas condições, acabam despendendo mais tempo no trabalho, diminuindo substancialmente assim o tempo que tem para aproveitar a família ou disfrutar do lazer que a cidade "moderna" oferece. É uma armadilha extremamente perigosa que com o tempo abre caminho para a revolta popular. Esta pode desaguar em dois tipos de mar completamente diferentes: num rearranjo constitucional, que devolva parte dos direitos aos trabalhadores, jovens e aposentados e restabeleça uma ordem socioeconômica e política próxima aos marcos de um estágio civilizatório razoável; ou, por outro lado, uma solução mais próxima do moderno autoritarismo que vimos assistindo nos países que se aproximam de uma agenda de extrema-direita, capaz de aprofundar ainda mais uma agenda de liberalização econômica e que, além de tudo, passe a interceder em favor de pautas conservadoras em relação aos costumes, algo que assistimos de camarote no Brasil neste exato momento". Carolina Araújo, mestranda em estudos organizacionais. 

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