Bolsonarismo e a polarização radicalizada

o bolsonarismo... polariza a política brasileira em si mesmo

| ACidadeON/Araraquara -

Seria o "bolsonarismo" produtor de polarização política em torno de si mesmo?
Nos últimos comentários de 2019 (voltaremos a partir da segunda quinzena de janeiro de 2020) o time do Multipli_Cidade apresenta  a reflexão de dois pesquisadores do Laboratório de Política e Governo (UNESP). Fabricio Henrique e Tailon Rodrigues Almeida trazem a problemática da polarização política nacional a partir desse movimento difuso intitulado, até o momento, "bolsonarismo". Seria o "bolsonarismo" produtor de polarização política em torno de si mesmo? Confira abaixo! 

"No campo político, os anos de 1994 a 2014 foram marcados pela intensa rivalidade protagonizada pelo PT e o PSDB. Contudo, seria um equívoco qualificar tal contraposição binária como polarização. A polarização vigora quando duas posições em contraposição distanciam-se em demasia umas das outras, seja na agenda e nos sentimentos, com as posições políticas intermediárias sendo drenadas pelo os polos. Visto que o bolsonarismo é uma posição de extrema direita com uma pauta ultraconservadora, portanto no extremo do espectro político ideológico, significa que ele polariza a política brasileira em si mesmo.
O problema desse fenômeno não está na rivalidade entre esquerda, petistas ou lulistas e o bolsonarismo pois, toda posição política razoável pautada na ordem liberal e com primazia democrática rivaliza necessariamente com o bolsonarismo. Quem portanto polarizou o sistema político brasileiro foi o bolsonarismo, uma vez que o radicalizou atraindo fundamentalmente todo o centro político para os extremos do espectros ideológico e moral. Com isso, a polarização significa que os atores cuja atuação estava centrada em construir pontes e moderar os radicais agora se converte na bipartição bolsonarista amigo x inimigo. É um tipo particular de polarização em que as instituições de amortecimento das tentativas mais extremadas do uso do poder político junto com os mecanismos de freios e contrapesos da democracia serão constantemente testadas até que haja abertura de consensos e moderações". Fabricio Henrique, cientista social (UNESP).  

"O sistema partidário erigido em meados dos anos 90 e consolidado na primeira década dos anos 2000, em torno da competição PT x PSDB, chegou ao limite de seu esgarçamento nas eleições de 2014. Já a partir deste modelo era possível identificar, de um lado, uma polarização na competição política pela presidência e, de outro, mecanismos de acomodação das tensões nas relações Executivo-Legislativo que viabilizariam a governabilidade. Em abstrato, polarizações políticas são comuns e perfeitamente aceitáveis em democracias. A política é também conflito, luta, disputa pelo poder. O problema, todavia, está na radicalização da polarização em contextos institucionalmente instáveis, ou de democracia recente, e em que uma das partes ou ambas carecem de compromissos democráticos. Neste caso, o jogo da polarização torna-se perigoso. Os extremos polarizados se retroalimentam, minando a capacidade de atração das alternativas mais ao centro. As preferências são fortemente pré-definidas e a tolerância a possíveis abusos de correligionários e lideranças aumenta, diminuindo o controle sobre arbitrariedades e abusos contra a democracia. Contudo, como não ser extremo contra Bolsonaro? A questão fundamental, na verdade, é como resgatar a política e a capacidade de pensar o Brasil de forma complexa, longe das armadilhas da simplificação binária da polarização radicalizada. O bolsonarismo se nutre da depreciação da política e busca organizar e capitalizar o ódio e o ressentimento para viabilizar-se politicamente. Seu intuito não é governar, mas desconstruir as bases do pacto social erigido com a Carta de 1988. A nós, por outro lado, cabe resgatá-las e ampliá-las". Tailon Rodrigues de Almeida, mestrando em Ciência Política (Ufscar).