Pecadinho e pecadão

Pau que bateu em Luiz, baterá em Jair? Toleramos as pequenas corrupções?

| ACidadeON/Araraquara -

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) (Foto: Reuters/Folhapress)
Quando adolescente, em um domingo desses ensolarados, sentado no banco da igreja ouvi do pastor: "tem gente que acredita haver diferença entre pecadinho e pecadão. Não! Não há! Se você contou uma mentirinha ou se você roubou alguém, isso é pecado, meu irmão. Peça perdão ao senhor e se arrependa do que fez. Deus ama o pecador, mas abomina o pecado". Essa fala retornou essa semana em meus pensamentos com muita força.  

Blog do comentarista da rádio CBN, Juca Kfouri, trouxe a seguinte informação a respeito do uso da cota parlamentar - recurso que os deputados tem à disposição por mês para o custeamento de gastos com serviços do mandato a partir de valores fixados e variáveis entre os estados dos parlamentares - em 2009, o então deputado Jair Bolsonaro, apresentou à Câmara nota fiscal de cerca de R$ 2.600,00 reais à época emitida pelo "Auto Serviço Rocar", posto na Barra da Tijuca, no Rio. No descritivo da nota, mais de 1.000 litros de combustível de uma só vez. Será que foi abastecido um tanque de guerra? 

No entanto, a notícia não para por aí. Em consulta a outros valores por meio da Lei de Acesso à Informação, a reportagem constatou que entre 2009 e 2011 Bolsonaro utilizou o equivalente a mais de R$ 46 mil reais em combustíveis em postos na Barra da Tijuca, bairro onde residia. Em linguagem simples: isso é superfaturamento. Até onde entendo, superfaturamento é, portanto, uma forma de corrupção.  

Mas o que seria algo em torno de 50 mil reais perto dos estimados 200 bilhões de reais por ano desviados em esquemas de corrupção, segundo informações de 2015 do Ministério Público Federal?  

Já consigo até ouvir: absolutamente nada! É uma gotinha no oceano. Em bom português, muitos dirão: querem derrubar o presidente com esse tipo de notícia e se esquecem dos bilhões desviados em governos petistas, verdadeiramente corruptos, os quais destruíram o país.  

Claro, há diferenças absurdas do ponto de vista de valores e impactos aos cofres públicos e a toda sociedade. Além do fato de haver consenso sobre os malefícios ao país da corrupção praticada nas últimas décadas e a importância das ações da Justiça. Na realidade, a Lava Jato trouxe à tona as relações promíscuas entre o público e o privado no Brasil, as quais eram conhecidas por todos, mas careciam de comprovação. Os impactos no sistema político foram imediatos, dentre eles, a destruição da lógica de competição política que possuíamos até então desde meados dos anos 1990. Abriu-se a oportunidade para que supostos "salvadores da pátria" chegassem onde chegaram. Mas, a despeito disso, deixo algumas perguntas no ar para refletirmos juntos sobre como lidamos com essa questão da corrupção.  

Em 2018 o presidente foi eleito justamente sob forte campanha anticorrupção. E agora, quando se trata de algo envolvendo-o, isso deixa de valer? Os valores em si são muito baixos, mas podem ser assim relativizados ou o que pesa no nosso juízo é a ação corrupta em si? Conforme afirmou o próprio presidente em 2019, "corrupto tem que ir para o pau de arara", e aí, como fica? Será que é possível ter "corruptos de estimação?" Pau que bateu em Luiz, baterá em Jair? Ou no fundo somos mais tolerantes a alguns desvios de conduta e menos tolerantes em relação a outros? Toleramos as "pequenas corrupções"?  

Em referência ao que o presidente insiste em dizer aos quatro cantos, conforme escrito em João 8:32: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Como as notas são verdadeiras, eis aí a verdade libertadora. Pois é, a fala do pastor continua a ecoar: pecadinho e pecadão é pecado! Ou não?