A crise é política!

Para entendermos a natureza da crise é preciso ir além dos factuais, das rixas políticas e do messianismo quase religioso

| ACidadeON/Araraquara -

Palácio do Planalto em Brasília/ Foto: Divulgação
A crise é política. Vou repetir de maneira silábica: a crise é PO-LÍ-TI-CA. 

O problema experimentado mundialmente pela pandemia do novo coronavírus é uma questão de saúde pública internacional. Ponto final. Agora, a maneira como cada país tem dado respostas ao problema se dá por meio da política. São as decisões dos representantes políticos, dos partidos no Parlamento, da burocracia estatal na figura dos servidores públicos e, também, das ações dos cidadãos comuns, como eu e você, que serão determinantes para enfrentarmos o problema com êxito ou fracasso.  

Para entendermos a natureza da crise é preciso ir além dos factuais, das rixas políticas e do messianismo quase religioso. 

Adianto: a crise política no Brasil é uma crise derivada do vácuo de lideranças com capacidade de interpretar os acontecimentos atuais e projetar futuro. É preciso ir além do senso comum para compreendermos que, logicamente, há pessoas bem preparadas, conhecedoras dos meandros do setor público e do mercado, capazes de sugerir propostas e ações práticas para enfrentarmos os problemas no país.  

Contudo, uma liderança política não se faz só por domínio de certos conhecimentos. Ela se faz por sua habilidade em agregar preferências e conquistar a confiança popular, e pela capacidade de decidir. Mais que isso: de fazer com que os outros creiam em suas decisões. Definitivamente, não temos um líder minimamente consensual com tais atributos hoje no país, sobretudo no âmbito nacional.  

Para entendermos a falta de liderança capaz de enfrentar os desafios postos pela pandemia hoje, é preciso darmos um passo para trás para depois, quem sabe, darmos alguns passos à frente.  

A insatisfação da sociedade em relação à classe política, de modo geral, e aos partidos e sistema político, em específico, se tornou mais aguda a partir das jornadas de junho de 2013. À época, Executivo federal, Legislativo, Judiciário, enfim, os Poderes da República, ficaram sem saber dar respostas. Passamos a ter um vazio de decisões e, consequentemente, mostramos a fragilidade do processo democrático nacional sobretudo em relação à política dar conta de entregar o tão sonhado bem-estar social.  

Todo vazio na política é rapidamente ocupado. De lá pra cá, não foi diferente. As pautas difusas advindas das manifestações encontraram um ponto de agregação: o combate à corrupção. Não é à toa que as pesquisas de opinião pública vieram apontando uma mudança na percepção do eleitor quanto aos principais problemas do país, os quais deixavam de ser as históricas áreas de saúde e educação e passaram a ser a corrupção. Nesse âmbito é que a Lava Jato ganhou centralidade na vida nacional e, para muitos, passou a ser a salvação dos nossos problemas. A oportunidade de "passarmos o país a limpo". 

Do ponto de vista objetivo, do impacto da Lava Jato em nosso sistema político, ela contribui diretamente para jogar a pá de cal no sistema representativo, desacreditando-o aos olhos da população, que abandonou a ideia de que a solução para os problemas coletivos advêm das decisões políticas, uma vez que a classe política, como um todo, foi colocada no banco dos réus.  

No pleito de 2014, o impacto dessa descrença ainda fora residual e o lulismo continuou dando a tônica da disputa nacional, reiterando a polarização entre petistas e tucanos desde 1994. Nas eleições municipais de 2016, surgiram as figuras dos "não políticos", exemplificativas em Dória, ao vencer a prefeitura de São Paulo, e Kalil, em Belo Horizonte, para ficarmos em dois dos maiores colégios eleitorais. Foi o advento dos empresários que vieram do mercado para resolver a "podridão do sistema público corrupto".  

Em 2018, ocorre a radicalização da descrença no sistema representativo após o conturbado e traumático processo de impeachment. O populismo lulista expresso na insistência do partido em manter Dilma, em 2014, mesmo ciente da profunda incapacidade e inabilidade política dela, que culminou em um processo de afastamento coordenado por um gângster, Eduardo Cunha, foi a cereja do bolo para a distensão institucional. A partir dali a corda não voltaria mais no seu lugar. Estava em curso a degradação do sistema representativo que começou a ser organizado nos anos 1980, no contexto da redemocratização. O resultado do último pleito nacional é prova nítida do desejo de renovação e da sobrevivência de poucos caciques mais tradicionais.  

Sem lideranças consensuais à altura dos desafios impostos pela conjuntura política e econômica, e com forte desejo de mudança, o Brasil ao invés de sair em defesa dos direitos, do fortalecimento institucional e da razoabilidade política, abraçou novo populismo. Dessa vez, com a chave trocada, à direita, no que atualmente é chamado de "bolsonarismo". Estava claro o impacto de 2018: não havia vencedores e perdedores. Ocorrera um completo esfacelamento do centro político democrático (o qual não pode ser confundido com o "centrão"), capaz de servir como um muro de contenção aos extremos.  

A lógica da autoridade suplantou a do consenso negociado, ou seja, a saída pela construção de um consenso democrático. Diante disso, o que estamos acompanhando hoje? Radicalismos, reducionismos infantis, o não debate qualificado das questões de saúde e a valorização das opiniões e das narrativas particulares frente aos fatos e aos dados, de amplo conhecimento público. Completo desastre.  

A crise é política. Ela não será superada pelas redes sociais (avessas ao diálogo) ou pelo simplismo binário (a favor do ministro ou a favor do presidente, em defesa dos governadores ou em relação ao presidente, etc.). Tampouco, sairemos dela pela crença cega em um messias.