A incógnita Rodrigo Maia

A essa altura do campeonato não é mais novidade que o conflito entre os Poderes se tornou regra e, a cooperação, a exceção.

| ACidadeON/Araraquara -

Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Rodrigo Maia rompeu o silêncio em coletiva de imprensa. Havia muita expectativa em relação ao que iria falar devido aos acontecimentos do último final de semana envolvendo Bolsonaro e os seus apoiadores radicais. A essa altura do campeonato não é mais novidade que o conflito entre os Poderes se tornou regra e, a cooperação, a exceção.  

Ele vem sendo pressionado por opositores do governo federal e setores da mídia e opinião pública a dar sequência em um dentre as dezenas de pedidos de impeachment sobre a sua mesa. Ao ser questionado a respeito da participação de Bolsonaro nos atos desconversou e se posicionou de maneira cautelosa fazendo uma defesa do trabalho que o Parlamento tem feito até aqui, baseado no diálogo e na construção de pontes para enfrentar a pandemia. Está nítido que Maia não quer esticar ainda mais a corda com o presidente.  

Seria ele então um político enfraquecido e que se amedrontou diante da escalada autoritária do governo ou um sujeito prudente e preocupado com as consequências incalculáveis de um terceiro processo de impeachment em menos de trinta anos? A resposta a essa questão só virá com o tempo e a depender do que venha a se tornar público dos inquéritos do STF. No entanto, há algumas pistas a serem consideradas.  

Primeiro, o protagonismo alcançado pelo Legislativo em meio à crise e, a consequente perda de apoio de Bolsonaro diante da sua atitude negacionista da pandemia, podem levar Maia a ser cauteloso a fim de não deixar de ser o fiel da balança no confuso jogo político atual em Brasília.  

O Parlamento, historicamente, é mal visto pela população. Contudo, no auge da crise sanitária envolvendo a saída de Mandetta, em abril, o Congresso chegou a atingir a sua melhor avaliação nos últimos anos: 21% de ótimo/bom conforme dados de pesquisa da XP, ao passo em que o governo Bolsonaro, no mesmo período, já tinha a sua avaliação negativa maior que a positiva. Na mesma pesquisa, em sua última medição no dia 30 de abril, os que avaliam o presidente como ruim/péssimo já chegam a quase 50% da população. Esse é o impacto real da saída de Moro do governo.  

Segundo, as movimentações de lideranças do centrão que tem se aproximado de Bolsonaro e obtido cargos e vantagens no governo federal podem representar um enfraquecimento a médio prazo da autoridade de Maia tanto no Parlamento quanto diante da sociedade a qual não é das melhores. Ele sabe que pode vir a se tornar, de fato, um político enfraquecido se abrir um processo de impeachment antecipadamente e não conseguir obter, no momento da decisão, os votos necessários para impedir o presidente.

Isso certamente seria muito positivo para Bolsonaro, reforçando-o como candidato para 2022 e contribuindo para esfacelar ainda mais qualquer tentativa de construção de um arco de alianças mais ao centro, tornando a polarização política já existe mais danosa. Um impeachment é um instrumento jurídico que necessita de um crime de responsabilidade para ser inaugurado. Mas, a construção de um consenso a respeito de tal crime é fruto de uma decisão política e, por hora, não há esse consenso estabelecido no Congresso.  

Terceiro, no meio de toda essa instabilidade política ocorrerão ainda as eleições municipais. Portanto, o movimento das lideranças desse "blocão" formado por partidos do centrão na Câmara, que conta com mais de 200 parlamentares, deseja se aproximar do governo para poder nomear correligionários que sejam capazes de influenciar sobre a destinação de recursos e políticas para territórios controlados por prefeitos e aliados políticos locais desses líderes partidários. Ou seja, estar dentro do governo é importante para vários desses caciques os quais não tem a fidelidade política como forte, mas o oportunismo e o governismo em seu horizonte de atuação.  

Ademais, as movimentações nos bastidores tanto do Planalto quanto do Congresso miram também as eleições de 2021 para a presidência da Câmara e do Senado. Certamente, se estiver vivo até lá, o governo vai querer selecionar melhor o nome que irá apoiar. Provavelmente o de alguém que possa controlar mais de perto, o que não consegue fazer com Maia, o qual possui afinidade com Guedes e a agenda econômica, mas não com o governo federal, sobretudo, Bolsonaro.  

Enfim, o jogo é mais complexo do que podemos imaginar. Enquanto isso, seguimos perdidos em meio à pandemia e sem um plano claro de como sairemos dela. A conferir o que vem por aí.