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Os desafios educacionais acentuados com a covid-19

A agenda e o debate educacional brasileiro têm sido marcado pela necessidade de elevar o grau de qualidade e a equidade no campo da educação básica

| ACidadeON/Araraquara

Foto: arquivo/Pixabay
A agenda e o debate educacional brasileiro têm sido marcados pela necessidade de elevar o grau de qualidade e a equidade no campo da educação básica. Educadores, gestores de sistemas educacionais, pesquisadores, movimentos sociais, grupos políticos e ONGs dedicam-se à busca de caminhos para solucionar esses dois desafios. Normativamente, isso se cristaliza no Plano Nacional da Educação (PNE), previsto na Constituição e aprovado no Congresso no ano de 2014, que carrega um conjunto de metas a serem cumpridas até 2024. E ainda que possam haver controvérsias no que diz respeito à estratégias e diretrizes, as metas do PNE destacam pontos sensíveis que devem ser aprimorados: acesso à educação infantil, alfabetização, melhoria do fluxo dos níveis de aprendizagem do ensino fundamental e médio, aumento da jornada escolar, crescimento técnico e melhoria da carreira docente, dentre outros.  

Contudo, a guinada educacional enfrenta intempéries delicadas que comprometem esse quadro pois, se por um lado a Terceira República lida atualmente com um verdadeiro vilipêndio de sua pasta ministerial, carente de uma gestão educacional séria e comprometida com o saber e a extensão do seu acesso, do outro lado a pandemia feroz da covid-19 acentuou debilidades que nos afastam sensivelmente do projeto de assegurar uma educação inclusiva e equitativa de qualidade.  

Desigualdade socioeconômicas e deficiências estruturantes na educação são corolários históricos que se reforçam mutuamente e se evidenciam, fundamentalmente, com o deslocamento do ensino para o ambiente virtual. O mercado, irremediavelmente, é capaz de ajustar-se e se dispor de serviços digitais que garantam a aprendizagem curricular com a paralisação das atividades presenciais; fora dele, porém, está o dramático dado de 4,8 milhões de estudantes da rede pública que não possuem acesso à internet e veem seu ano letivo comprometido. Para além desse desafio, que exige dos entes públicos a sensibilidade de uma elaboração normativa capaz de lidar com a diversidade educacional e com os problemas estruturais das entidades federativas diante do ensino à distância, especialmente para os grupos de maiores vulnerabilidades, é preciso reforçar nesse processo que a educação possui uma natureza histórica e política, não sendo, portanto, um software que se adquiri e simplesmente se utiliza.  

Em outras palavras, a construção de estratégias, materiais e diretrizes não devem ser uma imposição arbitrária vinda de cima, que trate o professor como um executor de tarefas e protocolos, mas sobretudo, reconhecendo que a categoria carece de formação didática e técnica para direcionar processos de aprendizagem em plataformas virtuais. É evidente que há um mundo de oportunidades tecnológicas à serem desbravadas e integradas no processo de ensino-aprendizagem e não se trata de satanizar a única alternativa posta no atual cenário. Todavia, sua implementação irá se relacionar com dificuldades históricas expressas nos baixos índices educacionais que ainda buscamos modos de equacionar.
A desigualdade digital, o trabalho docente precarizado, as mudanças, os improvisos, elaborações de alternativas e perdas, sem contar sua pasta ministerial tolhida pelo bolsonarismo. De fato, desafios e dificuldades no contexto educacional às vezes parecem como a Hidra de muitas cabeças com a qual Hércules teve que lidar: sempre que ele cortava uma cabeça duas outras nasciam no seu lugar. Educação exige bravura, mas também seriedade e comprometimento democrático em sua gestão.  

OBS: O blog Multipli_Cidade é feito coletivamente e apresenta, semanalmente, textos inéditos de uma rede de pesquisadores vinculados ao Laboratório de Política e Governo da UNESP/Araraquara.


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