A era da política (e dos políticos) fake

Pelo visto, o problema é enfrentarmos a nova era dos políticos cada vez mais fakes que temem pelo cerco à produção das fake news.

| ACidadeON/Araraquara -

Fake news representam preocupação cada vez maior (Foto: Divulgação)
Fake news não é novidade. Na política é muito antiga a famosa tática de soltar uma informação confidencial, uma novidade bombástica por meio de fontes junto aos meios de comunicação a fim de acompanhar a repercussão ou ver a dimensão que elas podem vir a adquirir. É a bendita da boataria. E olha que isso não está só na política, claro. Quem já brincou de telefone sem fio alguma vez na vida entende bem o que quero dizer. A palavra inicial pode ser "pato", mas quando chega no ouvido do último, a palavra entoada é "gado". Nesse momento percebemos o quanto a comunicação clara e que guarde veracidade com os fatos é fundamental. 

No entanto, tem muita coisa fake nos dias de hoje. As novas tecnologias de informação e comunicação pelas redes digitais trazem ganhos interessantes, transformando as relações humanas, mas há também inéditos problemas. O impacto das fake news no voto e, no cotidiano da política, se tornou um desses problemas que passou a chamar a atenção. Nos EUA, isso ficou mais evidente a partir da eleição de Trump em 2016. No Brasil, após o processo eleitoral em 2018.  

Aliás, fake news são parte do DNA do governo Bolsonaro. O quase-ministro Carlos Alberto Decotelli que o diga. Quando o governo federal imaginou desenhar uma solução razoável com a apresentação de seu nome para uma pasta completamente abandonada, a da educação, esqueceu apenas de checar a veracidade das informações do seu currículo. Pelo visto, tudo é fake. Ademais, as fake news estão em alta no debate em Brasília. Vamos nos recordar que temos o inquérito da PF em curso sobre o tema, que mira o Gabinete do Ódio; os trabalhos que se estendem dentro da CPMI no Congresso e; ontem, o Senado aprovou o PL 2.630/2020, intitulado Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na internet, com normas para as redes sociais e serviços de mensagem como whatsapp e telegram. A ideia central do projeto é coibir a circulação de notícias falsas que causem danos a figuras públicas, além de prejuízos à democracia.  

O projeto é de autoria do senador Alessandro Vieira (Cidadania/SE) e foi relatado pelo senador Angelo Coronel (PSD/BA) e contou com votação de 44 favoráveis contra 32 contrários, além de 2 abstenções. De maneira resumida, o projeto estabelece: definição de número máximo de membros em grupos de plataformas digitais; verificação e consentimento prévio do usuário da rede para participar de grupo ou de listas de transmissões; proíbe robôs de dispararem mensagens em massa; quanto a conteúdos publicitários, obriga a sua identificação e as informações de contato de conta responsável e; as plataformas ficam obrigadas a excluírem contas falsas ou criadas como contas fake, além de limitar a quantidade de contas ligadas a um mesmo usuário.  

O projeto, que segue agora para análise e votação na Câmara dos Deputados, continua sendo alvo de polêmicas. Bolsonaro já veio a público dar o seu pitaco e enfatizar que, se necessário for, irá vetar a medida ao acenar em frente ao Alvorada a alguns apoiadores dizendo: "Não vai vingar!". Pelo visto, o problema é enfrentarmos a nova era dos políticos cada vez mais fakes que temem pelo cerco à produção das fake news.  

OBS: O blog Multipli_Cidade é feito coletivamente e apresenta, semanalmente, textos inéditos de uma rede de pesquisadores vinculados ao Laboratório de Política e Governo da UNESP/Araraquara.