Amor, cuidado e respeito na relação das mulheres e crianças

Nos fora ensinado desde criança que briga de marido e mulher não se mete a colher

| ACidadeON/Araraquara -

Nos fora ensinado des(Imagem: Pixabay)
O silêncio nos soa confortante e por que a palavra nos assusta? Nos fora ensinado desde criança que briga de marido e mulher não se mete a colher. Assim, é imposto às crianças o dever de obediência inquestionável, impondo-lhes a passividade compulsória; onde a invalidação da fala é parte inerente ao processo de criação. Quando crescem, são contrastados com a responsabilidade social (constituir família, trabalhar), agora, quando adultos, o seu papel poderá mudar, exercendo o poder da fala, questionando, denunciando.

Em 05 de julho de 2020, na cidade de Araraquara/SP, um homem de 31 anos atingiu sua ex-namorada de 28 anos, com golpes de ferro na frente de um supermercado, contrariado pela recusa do convite de ir para a casa dele. Ela se dirigiu a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e o indivíduo exercendo um pretenso direito de "autoridade", foi ameaçá-la, sendo impedido pela polícia. A jovem solicitou abrigo no Centro de Referência da Mulher para se libertar do agressor.

Sabemos que durante o isolamento social advindo do covid19, a violência doméstica tem aumentado e de acordo com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH), em abril de 2020, as denúncias pelo canal 180 cresceram em 40% em relação ao ano passado. A campanha do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) "Sinal vermelho contra a violência doméstica" orienta que a vítima vá até uma farmácia ou drogaria conveniada e mostre a palma da mão com um "x" vermelho, para que os atendentes denunciem.
Na Paraíba, ampliou-se as casas abrigo para as mulheres e ocorreu a flexibilização do pedido da Medida Protetiva de Urgência (MPU), sendo solicitada por telefone e pela internet. Sobre a violência contra as mulheres, questionamos: como ocorre o processo de socialização dos agressores? Quais os aprendizados gerados nos espaços sociais (escola, igreja, trabalho, grupos diversos) que eles frequentaram? Será eles foram educados para o respeito às singularidades de uma outra pessoa? Lhes ensinaram a necessidade de harmonia e responsabilidade do estar na convivência?  

Bem, não sabemos as trajetórias da jovem e de seu agressor do caso de Araraquara/SP, porém, é preciso problematizar, refletir e agir no mundo presente. Como alternativa, as mulheres e responsáveis pela socialização das crianças poderiam fortalecer as dimensões do cuidado, do respeito e do amor ao próximo para que elas saiam do espaço privado da família e valorizem as mulheres nas ruas, praças, bares, escolas, universidades e no ambiente de trabalho. O desafio é ensinar as crianças para quando adultas não pratiquem a violência simbólica, moral, patrimonial, psicológica, física e sexual contra as mulheres.

Na série "Coisa mais linda" que se passa no Rio de Janeiro nos anos 1950 e 1960, as mulheres se fortaleceram e lutaram por respeito, conquistas no mundo do trabalho e pela manutenção do direito a educação do filho. Com expectativas e sonhos elas deram lições de amor a vida e, como sabemos, a palavra amor se apresenta como uma abertura imprescindível à condição humana. Quem sabe, em tempos de isolamento social, quando as crianças não estão no convívio escolar com professores e outras crianças, talvez, nas famílias, respeitadas as devidas condições sociais, o amor possa ser expandido, experienciado e vivido nas dimensões do cuidado e no respeito para que tornemos melhor o mundo que estar por vir.

OBS: O blog Multipli_Cidade é feito coletivamente e apresenta, semanalmente, textos inéditos de uma rede de pesquisadores vinculados ao Laboratório de Política e Governo da UNESP/Araraquara.