As eleições municipais vêm aí: o contato com a política em um ano sem contato

Além disso, chegamos em 2020 ainda sem nenhum tipo de entendimento e amadurecimento, enquanto cidadãos, sobre as implicações de um crescente processo de digitalização da política

| ACidadeON/Araraquara -

Foto: Arquivo / ACidade Ribeirão Preto
Em meio à intensidade do passar dos dias, o ano de 2020 já aparenta ser muito mais longo do que os 204 dias completados hoje, no dia 23 de julho de 2020. A passagem para o segundo semestre traz, no entanto, a lembrança de que cidadãs e cidadãos de 5.568 municípios ainda precisam definir quais pessoas assumirão os cargos de vereador, vice-prefeito e prefeito entre 2021 e 2024. É hora de pensarmos quais as implicações da realização de um processo eleitoral em meio à crise do coronavírus.  

O que muda na relação entre candidatos e eleitores? O que vem no lugar do cafezinho e do comício, em uma campanha eleitoral com contato presencial ainda mais restrito?  

O destaque à atuação das gestões municipais é um resultado evidente da situação de crise. Nisso, diversas prefeituras estabeleceram canais de comunicação com a população e também passaram a desenvolver políticas públicas relevantes em um momento crítico. A proximidade da eleição traz a questão sobre quais os limites a serem estabelecidos para tais ações, risco que teria originado a descontinuidade da publicação do cadastro para distribuição de cestas básicas pela Prefeitura de Belo Horizonte/MG (PBH), por exemplo.  

As orientações de distanciamento social, fator em aberto nos próximos meses, provocam impactos no modelo das campanhas eleitorais. Elas já eram digitais, mas apontar a constante presença da internet no meio político não é equivalente à exclusão ou obrigatória restrição do contato presencial.  

Os efeitos não são os mesmos porque o fenômeno não é o mesmo: por mais digital que seja, uma campanha eleitoral surge em um ambiente de comunicação em rede, híbrido e multifacetado. O WhatsApp nunca foi um mundo à parte, como se virtual e nós aqui, carne e osso, reais. Nessa perspectiva, rádio, TV, panfletagem, comício e a popular visitinha para o café da tarde não deixaram de cumprir suas funções, seja na campanha oficial ou nas ações dos apoiadores dos candidatos.  

Isso significa, por um lado, uma disputa mais intensa e pulverizada pela atenção do eleitor. Imagine você abrindo seu Instagram em setembro. Em meio às várias lives que já temos hoje, sobre os mais diferentes assuntos, estarão lá muitos candidatos tentando divulgar suas propostas para um possível mandato. Quais serão as estratégias utilizadas para que alguns se destaquem e qual atenção destinaremos a eles?  

Além disso, chegamos em 2020 ainda sem nenhum tipo de entendimento e amadurecimento, enquanto cidadãos, sobre as implicações de um crescente processo de digitalização da política. No âmbito institucional, mesmo com a utilização destas eleições como argumento para a aprovação de um PL para lá de questionável e ineficiente, o "PL das fake news" (2630/20), provavelmente estaremos sem uma legislação vigente sobre o tema.  

No fim, caminhamos para um cenário no qual ainda não sabemos qual será o papel assumido por uma campanha eleitoral em meio aos acontecimentos de 2020. Hoje, atingimos o ápice da presença da internet em nosso cotidiano, e nas eleições não será diferente. Por outro lado, se há uma tendência de que bons exemplos de gestão para enfrentamento do vírus se tornem vitrines para a reeleição, corre-se o risco de esquecermos que o mandato se expande para além dessa atuação.  

Nesse sentido, as candidaturas devem ser analisadas em sua totalidade, relembrando as competências privativas do município e seu comprometimento com as pautas que vão além do combate imediato ao coronavírus, como mobilidade urbana, uso do espaço público e estímulo ao desenvolvimento local.  

OBS: O blog Multipli_Cidade é feito coletivamente e apresenta, semanalmente, textos inéditos de uma rede de pesquisadores vinculados ao Laboratório de Política e Governo da UNESP/Araraquara.