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O que fazer com estátuas e monumentos que consagram a experiência colonial e escravista no espaço público brasileiro?

Estátuas e monumentos em vias públicas possuem significados históricos importantes, pois podem servir para enaltecer personagens, exaltar regimes políticos ou rememorar eventos e personagens históricos.

| ACidadeON/Araraquara

Assembleia de Mulheres - Breno Irving Amaral Carmo de Lima
Estátuas e monumentos em vias públicas possuem significados históricos importantes, pois podem servir para enaltecer personagens, exaltar regimes políticos ou rememorar eventos e personagens históricos. Por isso, são parte fundamental do processo de construção da memória pública. O recente assassinato de George Floyd por um policial branco em Minneapolis foi o estopim para que o debate sobre as causas desse tipo de barbaridade se inflamasse, com milhares de pessoas tomando as ruas com uma radicalidade que não se via há décadas. As circunstâncias da morte de Floyd fizeram com que se recolocasse um questionamento que atingiu uma parte da memória pública não só dos EUA e da Europa, como da própria América Latina: símbolos coloniais e escravocratas ainda deveriam ter espaço nos centros urbanos de hoje?  

Movimentos antirracistas ecoaram em diversos países e estátuas de figuras associadas ao colonialismo, à escravidão e ao genocídio foram derrubadas, pichadas ou removidas. No Brasil, casos envolvendo homenagens aos bandeirantes Manoel de Borba Gato e Anhanguera, além do "Monumento às Bandeiras", na cidade de São Paulo, foram motivos de controvérsia pela natureza escravagista e violenta que caracterizara essas expedições. Tanto que, no mês de junho de 2020, a Deputada Estadual de São Paulo Érica Malunguinho protocolou o Projeto de Lei 404, que visa proibir homenagens que remetam a eventos históricos ou a personagens ligados às práticas escravistas contra negros e índios no país.

O valor artístico e histórico dos monumentos não está em discussão, mas sim a necessidade de refletir sobre o seu lugar no espaço público. A exaltação destes personagens, representativos da herança colonial e escravista, mostra-se cada vez menos em sintonia com os valores democráticos que a sociedade brasileira afirmou nas últimas décadas. Valores que, numa cidade digna desse nome, precisam de alguma forma se expressar no espaço público, inclusive através de seus monumentos, estabelecendo formas novas de comunicação com os cidadãos.  

Um exemplo disso pode ser encontrado na cidade de Altinópolis, na região de Ribeirão Preto, que conta com dezenas de esculturas públicas do artista plástico italiano Bassano Vaccarini (1914-2002) expostas em praças e outros logradouros públicos. Suas obras mostram um exemplo virtuoso de como é possível constituir uma memória pública através de outros elementos representativos do povo, reconstruindo os elos com a sociedade. Retratando os trabalhadores do café, as mulheres em luta por seus direitos, a solidariedade e a Constituição, entre outros temas, Vaccarini preocupa-se com o viés civilizatório da arte pública. A dimensão social dessas obras reflete justamente a preocupação do artista com os parâmetros adequados para dar um sentido público para as questões da vida contemporânea.  

O debate sobre a retirada de monumentos expressivos de situações de opressão e discriminação é absolutamente necessário. Não se trata de apagar o que aconteceu no passado, mas sim de mudar a maneira como se lida com o passado, estabelecendo parâmetros para a construção do futuro. Nesse sentido, ainda que o caminho escolhido não esteja definido a priori, é preciso promover esse debate com vários setores sociais poder público, especialistas, universidades, população em geral para que se possa repensar e refazer a memória pública. Sabendo que a História é sempre (re)construída no presente, a questão a ser respondida é: qual a narrativa que escolheremos para contá-la? Olhe ao seu redor, observe sua cidade, e pense sobre que história ela conta? E se pergunte também que história você gostaria que ela contasse?  

OBS: O blog Multipli_Cidade é feito coletivamente e apresenta, semanalmente, textos inéditos de uma rede de pesquisadores vinculados ao Laboratório de Política e Governo da UNESP/Araraquara.

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