Alive e as lives

O povo não veio e o artista vai onde ele está. Aí que o bicho pega, pois nem todos os artistas são os procurados nos locais em que a plateia cresceu, como os serviços de streaming de música e vídeo

| ACidadeON/Araraquara -

Quantos artistas não foram esquecidos na pandemia?
 O vírus que alastrou contaminação, desconhecimento, ceticismo e morte pelo mundo aportou no Brasil no último dia de Carnaval. Chegou e impôs um período quaresmal ampliado. Arrebentou negócios. Muita gente ficou sem emprego e a curva só ascendeu. Estamos há cinco meses evitando, ou tentando evitar, aglomerações. Foi um parar repentino na vida veloz. Por um instante, pois o isolamento não tem sido muito católico neste imenso país, diverso e desigual.  

Neste breque não premeditado, artistas e toda a vasta gama de trabalhadores que atuam por trás das luzes da ribalta (montadores, cenógrafos, iluminadores, pessoal do som, logística, zeladoria, alimentação, organização de eventos) se viram sem público e sem caixa. O povo não veio e o artista vai onde ele está. Aí que o "bicho pega", pois nem todos os artistas são os procurados nos locais em que a plateia cresceu, como os serviços de streaming de música e vídeo e, o fenômeno das plataformas de vídeos das redes sociais, as lives.  

A esses artistas "esquecidos" somam-se as casas culturais, museus, teatros, casas de show suas contas abaladas. Muitos têm buscado outras formas de sobreviver este período em que estão sem trabalho. Alguns artistas vendem telas, colantes, camisetas, artesanatos em geral pela internet, outros valem-se de financiamentos coletivos.  

Adiantando-se ao baque e no embalo dos debates e lutas para fazer aprovar o auxílio-emergencial aos trabalhadores, ainda em março, um grupo de 24 deputados federais reuniu-se com diversas propostas de socorro econômico à classe artística que resultou no projeto de lei nº 1075/2020, de autoria da deputada federal Benedita da Silva (PT/RJ), batizado de "lei de Emergência Cultural Aldir Blanc", pela relatora do projeto, a deputada federal Jandira Feghali (PC do B/RJ) como homenagem ao compositor homônimo falecido em 4 de maio deste ano em decorrência da Covid-19. A lei foi sancionada em 29 de junho.  

Em Araraquara, realizaram-se reuniões e fóruns para dirimirem dúvidas da classe artística acerca de como realizar o cadastro e para quem se destina a verba. O valor destinado a este fundo é de R$ 3 milhões a ser transferido da União aos Estados e municípios. Os primeiros mais o Distrito Federal recebem metade do dinheiro, e os segundos ficam com a segunda parte.  

O auxílio destina-se a trabalhadores da arte que tenham atuado neste campo nos últimos dois anos e não tenham outro vínculo empregatício ou estejam recebendo o auxílio emergencial e visa ajudar, também, espaços, microempresas e cooperativas culturais com atividades interrompidas pelo isolamento.  

Aldir Blanc, que foi chamado de "ourives do palavreado", por Dorival Caymmi, tomou um rabo de foguete aos 73 anos, quase esquecido e sem grana para manter-se internado, como se o poeta calasse diante do vírus, diante da bomba, diante da realidade que nos assola.
João Bosco, cantor e compositor, no entanto, como sobrevivente discorda, pois disse sobre a passagem do parceiro: "Uma pessoa só morre quando morre a testemunha. E eu estou aqui para fazer o espírito do Aldir viver. Eu e todos os brasileiros e brasileiras tocados por seu gênio". Jorge Luis Borges (nascido esta semana, 24 de agosto, em 1899), o prolífico escritor argentino, numa conferência sobre a imortalidade, ratificou em termos semelhantes que a pessoa se torna imortal quando a declamamos, a cantamos, quando proclamamos sua arte. O show do artista continua e ao vivo, alive.

OBS: O blog Multipli_Cidade é feito coletivamente e apresenta, semanalmente, textos inéditos de uma rede de pesquisadores vinculados ao Laboratório de Política e Governo da UNESP/Araraquara.