A quem interessa o voto impresso?

A quem interessa o voto impresso? Dado que o sistema eleitoral brasileiro é referência mundial no que diz respeito ao uso das urnas eletrônicas.

| ACidadeON/Araraquara -

Voto impresso interessa a quem? 

O debate acerca do voto impresso tem ganhado corpo e forma nos últimos tempos em nossa sociedade. Mesmo que ruidosamente esta discussão possa parecer um assunto um tanto ultrapassado para uma grande parcela da população brasileira. Ele vem sendo impulsionado e discutido pelo presidente da república Jair Messias Bolsonaro e por quem o segue e o apoia. 

A quem interessa a volta do voto impresso? Dado que o sistema eleitoral brasileiro é referência mundial no que diz respeito ao uso das urnas eletrônicas e que, curiosamente, o próprio presidente (que tem questionado as eleições) em exercício elegeu-se como deputado federal por sete mandatos entre os anos de 1991 e 2018 através deste mesmo sistema eleitoral e as urnas eletrônicas, e em todas estas eleições não questionou a validade dos votos que recebeu ou dos votos recebidos por seus próprios filhos, que também foram eleitos através deste sistema. 

É importante relembrar: O voto impresso já foi testado em uma outra ocasião em nosso país, no ano de 2002, onde algumas cidades do Brasil contaram com a impressão do voto junto ao voto realizado em uma urna eletrônica. Na ocasião, 6,18% dos eleitores brasileiros passaram pela experiência, que havia seguido uma mudança instituída pela lei. Contudo, a experiência deste modelo híbrido causou confusão entre os eleitores que demoravam mais tempo para votar, encontraram dificuldades para gravar os dois tipos de votos, maior ocorrência de defeitos e possibilidades de fraudes, segundo relatório apresentado pelo Tribunal Superior Eleitoral. O órgão destacou também os altos custos deste modelo, que obrigaria a substituição de todas as urnas eletrônicas, já que elas não abarcariam este novo sistema, gerando um custo de mais de R$ 2 bilhões de reais para os cofres públicos. 

No Brasil, a história do voto é datada da época da colonização. Foi em 1532 que ocorreu a primeira eleição para a Câmara de São Vicente-SP. Do período colonial à história atual, o voto passou por numerosas transformações e, até 1934, negros e pobres não podiam votar no Brasil. Somente com a chegada de Getúlio Vargas à presidência o país criou o Tribunal Superior Eleitoral e os Tribunais Regionais Eleitorais, instituindo também o voto das mulheres e o voto secreto. Somente com a Constituição de 1988 o direito ao voto passou a ser absoluto. Antes era também negado às pessoas que não sabiam ler e escrever. 

Em 1996 realizou-se no Brasil a primeira eleição oficial através da urna eletrônica, com um sistema informatizado para a totalização de todos os votos, substituindo a contagem de células de papel em 57 cidade do país e, nos anos 2000 todo o Brasil pode vivenciar a experiência de votar por meio da urna eletrônica, sem a necessidade de escrever no papel ou assinalar no nome do candidato. As urnas eletrônicas sãos seguras porque sua tecnologia não tem acesso a rede de internet, além de possuir cerca de 30 camadas de segurança, sem necessidade alguma de imprimir o voto. 

Diante da pandemia da covid-19 na qual, mais de 600 mil vidas foram reduzidas a números, e inúmeras famílias perderam seus entes amados, vale a indagação: por que o governo estaria mais preocupado em imprimir os votos da nação do que em comprar mais vacinas e promover políticas públicas de saúde eficazes neste momento de crise? 

É notório que as preocupações do presidente da república não são condizentes com o cargo que ele exerce, uma vez que ele é sempre visto na companhia de seus apoiadores sem fazer o uso correto da máscara, isso quando o faz, além de seguir promovendo grandes aglomerações desde o início da pandemia, tendo como principal exemplo as motociatas em que compareceu este ano. 

Enquanto isso o Brasil ocupou durante grande parte do ano o 2° lugar no ranking de números absolutos de vítimas pela covid-19 ficando atrás apenas de países como os Estados Unidos da América, país que aliás também utiliza o voto impresso e nas últimas eleições de 2020, que elegeu o atual presidente Joe Biden, demonstrou a problemática em torno da contagem manual dos votos. Não é de impressionar que o exemplo dos EUA na era trumpista tenha influenciado tanto o nosso país que hoje colhe os frutos da desinformação e da negação. Votar é um direito de todos e as urnas eletrônicas são a forma mais segura de garantir esse direito. 

*Doutoranda em Antropologia Social (UFSCar), Mestra em Antropologia Social e Bacharela em Ciências Sociais com Ênfase em Antropologia (UFSCar), Aluna de Graduação do Curso de Ciências Sociais da UNESP - Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. O projeto "Pílulas de Educação Política" é realizado sob a supervisão do Prof. Danilo Forlini, responsável pela disciplina "Ciências Sociais e Educação: Diálogos com a Ciência Política" feito em parceria com o Prof. Bruno Silva e o blog Multipli_Cidade do Portal A CidadeON.