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Um texto sobre futebol e política

Torcemos para que a seleção melhore seu desempenho, como também torcemos para que a liberdade vença a ignorância

| ACidadeON/Araraquara

Daniel Alves durante a partida entre Brasil e Nigéria, disputada em Singapura. (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)
O que é menos importante em uma partida amistosa é o resultado final do confronto. Nesses jogos se deve testar novas alternativas e analisar o desempenho enquanto um processo em construção. E a crítica à seleção brasileira passa justamente por esses fatores, e não pelo placar de 1 a 1 repetido com Senegal e Nigéria, completando uma sequência de quatro jogos sem vitória.  

Se a seleção tivesse vencido, as críticas ainda assim fariam sentido.  

O esquadrão de Tite vem apresentado um problema crônico, que pode ser diagnosticado se relembrarmos as partidas contra Suíça e Costa Rica na Copa do Mundo de 2018, como também os empates com Venezuela e Paraguai na Copa América desse ano. A equipe tem dificuldade de alcançar um bom desempenho contra seleções que jogam fechadas, onde há pouco espaço para progredir no campo de ataque. O treinador do Brasil vem buscando alternativas táticas para superar essa dificuldade, mas ainda sem sucesso.  

A seleção tem optado por jogar com Casemiro e Arthur no meio-campo, ótimos jogadores na marcação, para manter a posse de bola e realizar com passes a transição do campo de defesa para o ataque, porém pouco agressivos quando precisam atacar a defesa adversária. Além disso, os laterais brasileiros atuam como "laterais interiores", o que significa que eles jogam em direção ao centro do campo e não buscando os corredores laterais.  

Com isso, o jogo posicional do time brasileiro gera pouca mobilidade no ataque, o que diminui a criatividade da seleção em muitos momentos. Nesse cenário, a opção por jogar com Neymar aberto pela esquerda ou centralizado acaba não sendo tão decisiva.  

Ademais, Tite tem dado poucas oportunidades para os novos jogadores convocados. Sinto um incômodo especial em relação aos zagueiros e à lateral-direita, tendo em vista as idades de Thiago Silva e Daniel Alves. Precisamos de alternativas para esses dois jogadores, que só saberemos se são boas se forem testadas.  

São esses os desafios de Tite com a seleção brasileira. Um terreno fértil que precisa ser melhor semeado.  

FUTEBOL E POLÍTICA  

Tivemos um dia histórico na última quinta-feira (10), na partida válida entre Irã e Camboja, pelas eliminatórias asiáticas para a Copa do Mundo de 2022, vencida pelos primeiros pelo placar de 14 a 0. Pela primeira vez, desde 1981, as mulheres iranianas puderam voltar a assistir um jogo em um estádio de futebol, em decorrência de uma mudança, ainda circunstancial, na legislação local. Longe das condições ideias, mais de 3,5 mil mulheres estiveram nas arquibancadas do Azadi Sport Complex, em Teerã. Entre todos os gols marcados, esse foi o mais bonito.  

Já no sábado (12), Roger Machado, treinador do Bahia, foi responsável por anotar um outro golaço.  

Em coletiva de imprensa após o confronto entre sua equipe e o Fluminense, que também marcou o encontro entre Roger e Marcão, atualmente os únicos treinadores negros empregados na elite do futebol nacional, o técnico do tricolor baiano falou sobre o racismo estrutural da sociedade brasileira. Abordou a história escravocrata do Brasil, a falta de oportunidades igualitárias para a população negra e o fato dos negros serem as principais vítimas de homicídio do país. Ainda disse ser uma exceção que confirma a regra, desvelando nosso racismo: "Eu sou a prova de que há racismo porque eu estou aqui".  

O futebol não é uma ilha isolada dos conflitos políticos e sociais que vivemos em nosso cotidiano. Quem diz que futebol e política não se misturam ignora que o próprio futebol é político.  

As boas novas dessa semana nos dão esperança de que, na peleja da vida, a liberdade ainda pode vencer a ignorância.

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