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Não basta não ser racista, precisamos ser antirracistas

Somente entendendo a simbiose que acontece entre futebol e política é que poderemos acabar com o racismo e outras formas de preconceito

| ACidadeON/Araraquara

Taison respondendo ao racismo que sofreu durante partida do Campeonato Ucraniano. (Foto: Oleksandr Osipov / Reuters)
Foi resgatando Mano Brown e Angela Davis que Taison, jogador brasileiro do Shakhtar Donetsk, se pronunciou em suas redes sociais sobre os atos racistas que sofreu no domingo (10), durante partida do Campeonato Ucraniano, contra o Dínamo de Kiev. Ele e Dentinho, também brasileiro e seu companheiro de time, foram alvos de torcedores da equipe rival, que imitavam sons de macaco todas as vezes que os atletas tocavam na bola.  

Em campo, o jogador se posicionou mostrando o dedo do meio e chutando a bola na direção dos racistas, que expressavam seu preconceito sem constrangimento. O juiz paralisou a partida até que as manifestações de injúria racial cessassem e encaminhou os atletas para os vestiários. Na volta ao gramado, antes de reiniciar o jogou, o árbitro expulsou Taison por seu "gesto obsceno", premiando os racistas de Kiev que viram seu time terminar o jogo com um jogador a mais em campo.  

Pelo menos os deuses do futebol compensam as injustiças cometidas pelos humanos, e a partida foi vencida por 1 a 0 pelo time de Donetsk.  

Nas redes sociais, junto à foto em que mostrava o dedo médio em riste para os racistas ucranianos, Taison publicou um texto que começava com alguns versos de "Jesus Chorou", música dos Racionais MC's: "Amo minha raça, luto pela cor, o que quer que eu faça é por nós, por amor". Falou sobre a desumanidade do que viveu, a necessidade de lutar por direitos e igualdade e que "em uma sociedade racista, não basta não ser racista, precisamos ser antirracistas", reafirmando as ideias defendidas pela militante e filósofa estadunidense Angela Davis.  

Infelizmente, os casos de racismo no futebol não são "episódios".  

Segundo o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, em 2019, houve 42 casos de racismo no futebol brasileiro, enquanto outros 13 aconteceram com jogadores brasileiros que atuam no exterior.  

Malcom, do Zenit, da Rússia, e Dalbert, atualmente na Fiorentina, da Itália, foram outros brasileiros que sofreram com injúria racial na atual temporada do futebol europeu. O clube russo, inclusive, possui uma torcida racista organizada que é publicamente contra a contratação de jogadores negros, enquanto na Itália, o italiano Balotelli, do Brescia, o costa-marfinense Kessié, do Milan, e o belga Lukaku, da Inter de Milão, também foram alvos de torcedores racistas durante esse ano. 

Não houve punição aos racistas em nenhum dos casos mencionados.  

E há quem diga que as denúncias de racismo não passam de "vitimismo".  

Em nosso futebol, também tivemos (mais) um caso de violência racial nesse final de semana. Em vídeo divulgado pela Rádio 98 FM, de Belo Horizonte, após confusão generalizada que aconteceu no Mineirão durante o clássico disputado entre Atlético-MG e Cruzeiro, torcedores do Galo agrediram um segurança que trabalhava no local, que ouviu "olha a sua cor" como ofensa final após uma sequência de xingamentos. Como resposta, o trabalhador respondia: "olha minha cor? Você é racista?"  

O maior ídolo da história do Atlético-MG é o atacante Reinaldo, negro, militante e que comemorou seus mais de 250 gols marcados pelo clube com o punho cerrado para o alto, em referência aos Panteras Negras e inspirado pelos feitos de Tommie Smith e John Carlos. Uma história que os racistas do Mineirão não devem conhecer.  

Em nota, o clube repudiou veementemente o acontecido e disse que o fato deve ser objeto de rigorosa apuração.  

O futebol serve como véu não só para o racismo, mas também para outras formas de violência social, em que a passionalidade do torcedor é usada como justificativa para a perpetuação de formas de preconceito enraizadas socialmente.  

Somente entendendo a simbiose que acontece entre futebol e política é que poderemos acabar com o racismo e outras formas de preconceito.  

Eu tento fazer a minha parte. E você, faz a sua?

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