Aguarde...

ACidadeON

Voltar

colunistas e blogs

O futebol brasileiro precisa visitar o Templo de Delfos

O verdadeiro problema reside, portanto, no fato de que o próprio Palmeiras não sabe o que pensa sobre futebol

| ACidadeON/Araraquara

Técnico Mano Menezes concedeu entrevista nesta sexta-feira (25). (Foto: Divulgação/Cesar Greco/Ag. Palmeiras)
O Flamengo, pela segunda vez no ano, derrubou um técnico do Palmeiras.  

Junto de Mano Menezes, também caiu Alexandre Mattos, que foi diretor de futebol do clube por cinco anos e nesse período, se tornou uma das figuras mais controversas do futebol brasileiro.  

Com Mano, foram 20 jogos disputados em incompletos três meses de trabalho, somando quatro derrotas, três delas nos últimos três jogos, quando o clube completou a sequência de cinco partidas consecutivas sem vencer.  

Para substituir o técnico gaúcho, o nome forte no clube é o do argentino Jorge Sampaoli, atual treinador do Santos, que está em segundo lugar no Campeonato Brasileiro.  

Contudo, qual será o respaldo dado pelo Palmeiros para quem for o seu novo técnico?  

Com Sampaoli, a equipe do Santos, entre os meses de agosto e setembro, viveu uma sequência de apenas uma vitória em oito jogos disputados pelo Brasileirão. Já no Campeonato Paulista, o time foi goleado por Ituano e Botafogo-SP pelos placares, respectivamente, de 5 a 1 e 4 a 0. Além disso, o clube foi eliminado na primeira fase da Copa Sul-Americana para o River Plate do Uruguai, jogando a partida decisiva em seus domínios.  

Com números melhores, Felipão e Mano Menezes foram demitidos.  

O verdadeiro problema reside, portanto, no fato de que o próprio Palmeiras não sabe o que pensa sobre futebol. Por isso, transita entre perfis de treinadores tão distintos como os de Cuca, Eduardo Baptista, Roger Machado, Felipão e Mano Menezes. Não há conceitos que definam sua identidade como clube. Impregnado pela cultura resultadista, não há espaço para ideias, já que a única coisa que importa é vencer o próximo jogo.  

Desse modo, tanto faz quem será o novo treinador do Palmeiras.  

Contudo, o clube alviverde não é a exceção, mas a regra. Nossos times vão de Abel Braga para Jorge Jesus, de Rogério Ceni para Abel Braga, de Cuca para Fernando Diniz, e por aí vai. Vencedores e derrotados inseridos no mesmo ciclo vicioso.  

O velho continente, entretanto, nos ensina como largar o vício.  

Em Liverpool, o atual campeão europeu revisitou sua história para definir sua identidade de jogo.  

Para isso, reuniu em um único conceito: a contratação de jogadores com potencial para se tornarem melhores do mundo, mas que atingiriam seu nível máximo em Anfield; a tradução, em modelo de jogo, da "poesia em movimento", expressão presente nos cânticos da torcida desde a década de 60; a inspiração na solidariedade de Bill Shankly, o socialista de Liverpool, que treinou a equipe entre 1959 e 1974. Um projeto liderado pela gestão do clube, em que "You I'll Never Walk Alone" foi simbolizado definitivamente.  

Escolher Jürgen Klopp como treinador do clube foi consequência desse processo.  

O primeiro título só veio na temporada passada, a quarta do alemão sob o comando técnico do clube, com a conquista da Uefa Champions League.  

Times como Barcelona, Atlético de Madrid, Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Ajax e tantos outros, também traduziram suas histórias em conceitos para dizer quem são como clubes.  

No Brasil, quantas equipes semeariam por quatro anos a conquista de um título? Quantos torcedores teriam paciência para entender a vitória em um campeonato como fruto da consolidação de um projeto maior? Sem pichar, apedrejar e invadir os centros de treinamento do time?  

Desde Sócrates, sabemos que conhecer a si mesmo é a maior virtude contra o vício, e que é mais digno tomar um trago de cicuta do que trair quem se é.  

Para redescobrir o seu caminho, o nosso futebol precisa agendar uma visita ao Templo de Delfos.

Mais do ACidade ON