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Há um menino, há um moleque, jogando bola no meu coração

Agora, quem escreverá nesse espaço é o pequeno João. Espero que ele seja uma boa companhia para sua quarentena

| ACidadeON/Araraquara

Em 2006, quando a Ferroviária estava na Série A3 e as crianças que treinavam no clube jogavam no intervalo das partidas. (Foto: Tetê Viviani)
Era 3 de dezembro de 2003. São Paulo e River Plate jogavam a partida de volta pela semifinal da Copa Sul-Americana. Não lembro ao certo quem me acompanhava na sala de casa, mas tenho a impressão de que a minha irmã mais velha via a peleja comigo.  

O Tricolor foi derrotado por 3 a 1 no jogo de ida, mas empatou no placar agregado ao vencer o confronto no Morumbi por 2 a 0, sendo eliminado por 4 a 2 nas cobranças de pênaltis.  

Do lado dos Millonarios, o time tinha Máxi Lopez e Lucho Gonzáles em início de carreira, Marcelo Gallardo e Eduardo Coudet no meio-campo, com o chileno Manuel Pellegrini que, futuramente, passaria por Real Madrid e Manchester City, no comando técnico.  

O São Paulo contava com jogadores como Rogério Ceni, Luís Fabiano, Diego Lugano e Fábio Simplício, com o também chileno Roberto Rojas no banco de reservas, em sua primeira e única experiência como técnico no alto nível do futebol sul-americano.  

Olhando retrospectivamente, o time argentino era muito melhor que o brasileiro.  

Aos oito anos de idade, essa foi a primeira partida de futebol que vi na íntegra.  

Para a criança, ficou o encanto com a reação são-paulina, a perplexidade com a porradaria generalizada ao final do jogo ("Entre brigar e bater o pênalti, eu prefiro ajudar na briga", disse Luís Fabiano) e o frio na barriga causado pelas penalidades.  

Naquela noite enredada por drama e tango, eu senti algo diferente.  

Em janeiro de 2004, em uma viagem para Angra dos Reis com a minha família e uma família amiga, dividi com meu irmão (também mais velho) o quarto do hotel.  

Em uma noite qualquer entre nada e coisa nenhuma para fazer, ele ligou a televisão e estava passando um jogo do Campeonato Italiano. Lembro que o time da casa era a Internazionale de Milão e que o Lecce foi a equipe adversária.  

Bem no início da partida, os visitantes abriram o placar. Falei ao meu irmão que a partida já estava decidida, porque um time tem que ser muito ruim para levar um gol tão cedo.  

Ele riu, me disse para ter calma e sentenciou que a Inter viraria e venceria o jogo por 3 a 1. Duvidei e vi a partida até o fim.  

Os donos da casa marcaram três gols no segundo tempo e saíram vitoriosos do confronto. Perguntei ao meu irmão como ele tinha adivinhado o placar final. Depois de me enrolar por quase meia hora, ele respondeu "É VT. Eu já sabia o resultado."  

Se aquele jogo fosse ao vivo, os caras estariam jogando às 3h da manhã. Naquele dia entendi o que era fuso-horário.  

Hoje, percebo como essa foi uma fronteira que se estabeleceu entre a minha geração e as que me antecederam. Assistindo aos jogos do futebol europeu como quem acompanha o que acontece na esquina da própria casa, eu não falava de Raí, Bebeto e Romário, mas sobre Francesco Totti, Thierry Henry e Andryi Schevchenko. E também Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo, que jogavam no Velho Continente.  

O menino que nascia para o mundo do futebol era filho da globalização.  

A minha sorte foi que meu pai não deixou de me levar até a esquina da minha casa. Nas cadeiras cativas da Fonte Luminosa, vi a Ferroviária S/A nascer e conquistar o acesso da Série B1 para a Série A3 no ano de 2004. Com isso, também aprendi a falar sobre Anderson, Dinei, Thiago Costa e Leandro Donizete.  

Como um ritual de passagem, foi assim que me apaixonei pelo futebol. 

Essa viagem no meu túnel do tempo da bola será o assunto do blog nas próximas semanas, para não perdermos a poesia dos gramados enquanto travamos a luta contra a pandemia de coronavírus.  

Agora, quem escreverá nesse espaço é o pequeno João. Espero que ele seja uma boa companhia para sua quarentena.  

Se eu pudesse, como bem sabe a minha mãe, reescreveria algumas palavras cantadas por Milton Nascimento, dizendo que no terrão da Fonte Luminosa ou nas quadras do Clube 22 de Agosto:  

Há um menino, há um moleque, jogando bola no meu coração.

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