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Fernando Diniz se tornou refém do que inventamos sobre ele

Com isso, nos interessamos menos em entender como o seu time jogava, e mais em criar rótulos vazios que nada diziam sobre o seu trabalho

| ACidadeON/Araraquara

Fernando Diniz, treinador do São Paulo, ao lado do lateral-direito espanhol Juanfran. (Foto: Divulgação/São Paulo)

No futebol brasileiro, nossos vícios estruturais, tanto dentro, como fora de campo, continuam se repetindo. Ainda somos os mesmos no "novo normal".  

A eliminação traumática do São Paulo para o Mirassol, em derrota por 3 a 2, dentro do Morumbi, fez com que a demissão de Fernando Diniz se tornasse uma pauta plausível em parte significativa dos programas esportivos. O tricolor paulista não vence um título há 12 anos, colecionando eliminações dolorosas no período, como contra a Penapolense, Juventude, Talleres, entre outras equipes. Mas, ao invés de empenharmos energia para entender o que é que está na base da seca são-paulina, nós preferimos gastar o nosso tempo tentando culpar alguém por um incêndio que já está lá há muito tempo. Sem perceber que, com isso, funcionamos como fagulha.

No caso de Diniz, o tema ganha ainda mais complexidade, porque o jovem treinador se tornou refém do que inventamos sobre ele. Em um país ferido de alma pelo 7 a 1, assistir ao seu Audax, finalista do Paulistão de 2016, parecia um alento. Como se a resposta para a crise do futebol brasileiro estivesse com ele. O novo que sempre vem, para superar a velha roupa colorida do passado.

Com isso, como é de costume em nossa terra, nos interessamos menos em entender como o seu time jogava, e mais em converter sua figura em mito, criando rótulos vazios que nada diziam sobre o seu trabalho. "Dinizismo" se tornou sinônimo de "Guardiolismo": um equívoco tremendo de quem só enxerga a posse de bola, mas não compreende sua intenção.

Assim, alvo da polarização que nos é um traço cultural, desde que começou a transitar pelos principais clubes do nosso futebol, todos ficam à espreita para reforçar tanto o estereótipo de que seus times jogam bonito, mas não vencem, sentenciando que, em grandes clubes, seus trabalhos nunca "darão certo", como também, quando os resultados começam a aparecer, há uma exaltação desmedida de suas equipes, como se estivessem promovendo uma revolução em nosso futebol. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar.

O São Paulo de Diniz gosta de ter a bola, praticando um jogo apoiado que não exige que o time realize uma ocupação racional dos espaços. Portanto, vemos um jogo de troca de passes, mas pouco posicional.

Com a bola, a orientação dos jogadores é atacar por dentro. Além disso, os cruzamentos se tornaram uma ferramenta importante do time, em que, no mínimo, três atletas ocupam a área para gerar volume ofensivo.

A liberdade para o apoio, que pode ser um mecanismo coletivo interesse para a troca rápida de passes, também pode fazer com que a equipe tenha dificuldades para criar novos espaços, tornando suas movimentações previsíveis.

Na transição defensiva, o time sofre para executar o "perde-pressiona" quando não está mais com a bola. No mais, a equipe também costuma estar espaçada entre os setores do campo. Dois problemas que, em conjunto, geram uma reação em cadeia e um convite ao adversário para contra-atacar.

Contudo, o seu trabalho não é ruim, como tentam afirmar aqueles que, há quatro meses atrás, também diziam que o tricolor paulista tinha o melhor desempenho entre os grandes do estado. O ponto principal é analisar o desempenho da equipe contextualizando suas ideias de jogo e "recalibrando" as expectativas criadas por nós mesmos.

Agora, o verdadeiro problema do São Paulo é ter se tornado uma instituição sem projeto e que não saber o que quer. Dorival Júnior, Diego Aguirre, André Jardine, Cuca, entre tantos outros. São nove técnicos efetivados desde 2015. Nem mesmo Rogério Ceni, o maior ídolo da história do clube, foi bancado pela direção.

A solução para o problema não pode ser fazer a mesma coisa que vem sendo feita há mais de uma década. Por isso, Fernando Diniz deve continuar.

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