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O Flamengo não soube calcular os custos da transição

A vitória de ontem serviu para que o treinador ganhasse tempo em um ambiente que parece já ter sacramento que sua passagem pelo futebol brasileiro será breve

| ACidadeON/Araraquara

Domenec Torrent em sessão de treinamento com o Flamengo. (Foto: Alexandre Vidal / Flamengo

A transição mais difícil de ser feita por um clube acontece quando a equipe já venceu tudo o que poderia ter vencido e, por força das circunstâncias, precisa trocar o seu comando técnico. Foi assim com o Flamengo, quando Jorge Jesus decidiu voltar ao seu país natal, para regressar ao time em que foi tricampeão português, deixando os torcedores flamenguistas órfãos daquele conduziu o clube na conquista de glórias que antes só haviam sido alcançadas pelo Santos de Pelé.

Ao contrário do que tem sido dito por aí, o principal trabalho de quem assumisse o Flamengo não seria, simplesmente, manter as coisas como elas já estavam, como se o processo de desenvolvimento de um time não devesse ser permanente e ignorando o contexto competitivo do Campeonato Brasileiro desse ano, que conta com o Atlético-MG de Jorge Sampaoli, o Internacional de Eduardo Coudet e uma pandemia que paralisou os jogos por mais quatro meses e tirou os torcedores dos estádios. Dentro desse cenário, Domenec Torrent foi o escolhido para tentar fazer o atual Flamengo ser melhor do que sua versão do ano passado -- ou, pelo menos, tão bom quanto.

Com a experiência como auxiliar técnico de Pep Guardiola por uma década, Domenec Torrent foi contratado pelo Flamengo depois de ter dirigido o New York City por duas temporadas, clube estadunidense fundado em 2013 e que pertence ao conglomerado esportivo do Manchester City. No ano passado, liderou a Conferência Oeste durante a temporada regular e levou o clube até as semifinais da MLS. Antes disso, entre 1991 e 2006, Domenec Torrent trabalhou como treinador em clubes pequenos da Catalunha.

Além disso, Domenec Torrent é formado pela escola do jogo de posição, que propõe que o futebol seja praticado diferentemente do que fazia o Flamengo de Jorge Jesus. Entra a ocupação racional dos espaços, em que os jogadores devem esperar a bola em suas "zonas de influência", e sai o jogo de mobilidade, em que a liberdade de movimentação acontece sempre tendo a bola como referência. O sentido continua sendo ofensivo, mas seguindo outro caminho.

Com isso, ao que parece, o Flamengo não soube calcular muito bem quais seriam os custos dessa transição. Um perfil de treinador diferente, com um calendário perverso que não permite tempo para treinar e a tarefa complexa de convencer jogadores que já venceram tudo a praticar um outro tipo de futebol, necessariamente, fará com que o time viva percalços. A goleada sofrida para o Independente del Valle é bastante representativa desse processo.

A vitória de ontem (22), contra o Barcelona-EQU, em uma partida que não deveria ter acontecido, pelo surto de covid-19 que contaminou parte do elenco do Flamengo, serviu para que o treinador catalão ganhasse tempo em um ambiente que parece já ter sacramento que sua passagem pelo futebol brasileiro será breve

Se Domenec Torrent será ou não um treinador de elite, só o tempo dirá. Isso pode demorar, como demorou com Jorge Jesus, que só conquistou o seu primeiro título de expressão depois de 20 anos de carreira e dois rebaixamentos na Liga Portuguesa com Felgueiras e Moreirense.

Contudo, a verdadeira questão que fica é se o Flamengo escolheu com convicção o seu novo treinador. Isso é o que realmente define se um clube está ou não em outro patamar.

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