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Mesmo para a Ferroviária, o inferno ainda são os outros

É fundamental que a Locomotiva saiba viver com resiliência as oscilações naturais que acompanham o processo de amadurecimento de um time

| ACidadeON/Araraquara

Jogando em casa, a Ferroviária ficou no empate com a Portuguesa-RJ no último sábado (26). (Foto: Divulgação)

Como não é novidade em se tratando do comportamento médio dos torcedores do futebol brasileiro, o empate da Ferroviária contra o Portuguesa-RJ por 1 a 1, jogando em seus domínios, já provocou reações desmedidas em parte da torcida afeana, que podem servir como fagulha para instalar o incêndio da instabilidade a que todos os clubes do nosso futebol estão pré-dispostos. Se alguém tem a expectativa de que a Ferroviária chegará até a Série C do Campeonato Brasileiro sem enfrentar percalços na quarta divisão nacional, eu tenho más notícias.

Em primeiro lugar, em relação ao empate do último sábado (26), não se pode falar do jogo como se a Locomotiva tivesse entrado em campo para enfrentar ninguém. A equipe da Portuguesa-RJ só surpreendeu aqueles que não acompanharam sua vitória por 3 a 0 contra o Toledo-PR. Estamos falando de um time organizado, competente no momento defensivo, quando se posiciona com uma linha de cinco defensores, em que os quatro meio-campistas se aproximam e compactam o setor, mas que também consegue ser criativa quando ataca, colocando os extremos para flutuar por dentro, liberando os laterais para dar profundidade e exigindo que os zagueiros joguem como construtores no início das jogadas. Entre as 64 equipes da Série D, por enquanto, a Portuguesa-RJ está entre as melhores.

Desse modo, a atuação da Ferroviária abaixo da expectativa se justifica mais pela qualidade do rival encontrado, do que por um jogo ruim por si só feito pelo time da Fonte Luminosa. Assim também aconteceu nos jogos contra a Inter de Limeira pelo Troféu do Interior e na eliminação para o América-MG na Copa do Brasil. Mesmo que a Ferrinha alcance seus objetivos na temporada, dificilmente fará isso de modo soberano, porque mesmo que não queiramos enxergar, o inferno ainda são os outros.

O que não surpreende é a pressão que já está caindo sobre Dado Cavalcanti, novo treinador do clube, que esteve com o time apenas em meia dúzia de jogos, somando dois triunfos. Para efeitos de comparação, em suas seis primeiras partidas como técnico do Flamengo, depois de um mês de pré-temporada em virtude da paralisação do Campeonato Brasileiro para a disputa da Copa América, Jorge Jesus também venceu só dois jogos, amargando, inclusive, uma eliminação na Copa do Brasil para o Athletico Paranaense de Tiago Nunes, que viria a ser campeão do torneio. Quando digo isso, não quero assemelhar qualitativamente o treinador português e Dado Cavalcanti. Contudo, se a avaliação deve ser feita pela capacidade de um treinador entregar resultados imediatos em apenas seis jogos, sinto em dizer, mas nem mesmo Pep Guardiola ou Jurgen Klopp serviriam ao gosto do torcedor da Ferroviária.

Além disso, mesmo que seja solenemente ignorado, o contexto da competição deveria ser levado em conta. Para além da pandemia -- também ignorada por muitos --, as duas primeiras rodadas da Série D nos trouxeram resultados que colocam em questão o nosso "umbiguismo" regional. Em um raio de oito jogos, apenas dois paulistas venceram seus confrontos (um deles, a Ferroviária), o que ilustra como a capacidade maior de investimento não substitui o tempo necessário que um time precisa para ser desenvolvido, como também demonstra que existe bom futebol sendo jogado em outros rincões do país.

Por isso, tão importante quanto não perder pontos em casa, é fundamental que a Ferroviária saiba viver com resiliência as oscilações naturais que acompanham o processo de amadurecimento de um time.

É assim que se formam equipes vencedoras.

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