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O Palmeiras não sabe se casa, ou se compra uma bicicleta

No meio da temporada, o Palmeiras definiu que seu novo treinador deve resgatar o "DNA palmeirense", que o próprio clube não sabe dizer qual é

| ACidadeON/Araraquara

Miguel Ángel Ramírez conquistou a Copa Sul-Americana em 2019, com o Independiente del Valle. (Foto: Agencia Press South/Getty Images)
Ontem (20), o espanhol Miguel Ángel Ramírez, atual treinador do Independiente del Valle-EQU, declinou da proposta que recebeu do Palmeiras. Possivelmente, Ramírez percebeu que a direção palmeirense não sabe exatamente o que quer. Demitir o técnico escolhido ainda no início do ano, quando o clube começou a tagarelar sobre "modernidade", e agora, no meio da temporada, apontar que seu novo treinador deve resgatar um "DNA palmeirense" que nem eles mesmos sabem qual é, demonstra o tamanho da confusão. Tanto que, enquanto o presidente Maurício Galiotte diz que o Palmeiras tem no seu DNA a transição rápida, o clube buscou, na realidade, o jogo de posição de Ramírez.  

Se o objetivo do Palmeiras fosse contratar um técnico com capacidade para desenvolver jovens talentos, como Patrick de Paula e os "Gabrieis" Menino, Silva e Verón, como caminho para conquistar resultados desportivos, não haveria, no mercado sul-americano de treinadores, uma opção melhor que Ramírez. Contudo, a busca por um novo treinador, disfarçada com verniz de projeto (ou de ácido desoxirribonucleico), dissimula cinicamente sua verdadeira intenção: se Ramírez assumisse o Palmeiras e terminasse a temporada de 2020 em sexto lugar no Campeonato Brasileiro, eliminado nas oitavas-de-final da Copa Libertadores, sem título de Copa do Brasil e com alguma derrota acachapante, como a que seu del Valle impôs ao Flamengo de Domenec Torrent, o técnico espanhol começaria o ano de 2021 desempregado.

O Palmeiras exigiria em dois ou três meses frutos que só poderiam ser colhidos no fim temporada subsequente.

Entretanto, ao que tudo indica, Ramírez estaria disposto a assumir o alviverde no ano que vem, possibilitando a ele concluir seu trabalho no Independente del Valle e iniciar sua jornada no Brasil na próxima temporada. Se o Palmeiras tivesse convicção de que o espanhol é o profissional mais indicado para desenvolver o DNA do clube, o acordo já deveria estar selado. Bayern de Munique e RB Leipzig contrataram com uma temporada de antecedência, respectivamente, Pep Guardiola e Julian Nagelsmann. Essa é a diferença entre escolher um treinador para o longo prazo e buscar um técnico para ser o bombeiro de um incêndio que os próprios clubes servem como fagulha.

Contudo, ao contrário do que fez Ramírez, que renunciou ao imediatismo do presente para projetar o futuro, o Palmeiras não se dispôs a esperar menos de um ano para que o técnico espanhol assumisse o clube, olhando apenas para o presente e ficando sem futuro. Nesse momento, os nomes de Guillermo Schelotto, bicampeão argentino com o Boca Juniors e atualmente no Los Angeles Galaxy da MLS, e Guto Ferreira, com oito títulos estaduais, mas sem passagem por um gigante do futebol brasileiro na primeira divisão do Brasileirão, são os favoritos da direção alviverde.

Entre os dois treinadores, Schelotto é a melhor opção. Mas, o cerne da questão é outro. O verdadeiro problema do Palmeiras é que o clube não sabe se casa, ou se compra uma bicicleta.

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