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Abel Ferreira no Palmeiras e o futebol antropofágico

Os clubes brasileiros, finalmente, abriram suas janelas para o mundo, assumindo que as cinco estrelas verde e amarelas contam só sobre o passado

| ACidadeON/Araraquara

Abel Ferreira é o novo treinador do Palmeiras. (Cesar Greco / Ag. Palmeiras)
Quando um jovem treinador destaca a importância de um jogo de futebol de computador para definir sua escolha profissional, as mentes mais conservadoras do mundo da bola logo reagem com preconceito. Frases como "jogou aonde" saem imediatamente da boca dessas figuras, que vivem amedrontadas com a possibilidade de que seus tabus referentes ao ludopédio sejam quebrados. Contudo, a trajetória de Abel Ferreira deixa os paladinos da mesmice sem argumentos.  

O novo técnico do Palmeiras não só é um ex-jogador, tendo atuado por seis temporadas pelo Sporting, um dos maiores clubes de Portugal, como também é fã de Football Manager, game que simula como seria o trabalho de um treinador em uma equipe de futebol profissional. Segundo Ferreira, que sempre se perguntou como Napoleão Bonaparte poderia ter vencido tantas guerras, foi jogando Football Manager que ele reconheceu o valor da estratégia para se ganhar uma partida de futebol.

Discípulo de Jesualdo, que também é Ferreira, foi comandado pelo ex-Santos no Braga, de Portugal, e com ele aprendeu que as duas perguntas mais significativas que se pode fazer durante as sessões de treinamento são: "como?" e "por quê?". Desse modo, o torcedor palmeirense pode esperar um choque cultural considerável quando o Palmeiras de Abel Ferreira se apresentar ao público. Claro, partindo do pressuposto que ele terá tempo para desenvolver o jogo coletivo do time.

Em seus trabalhos anteriores, no PAOK, da Grécia, clube que treinava antes de assumir o alviverde, e no próprio Braga, Abel Ferreira sempre presou pela organização do time através da ocupação racional dos espaços, em que cada jogador tem previamente determinada quais são suas zonas de influência dentro do jogo. Além disso, trata-se de um técnico extremamente versátil no uso das plataformas táticas. Suas equipes podem jogar tanto no 3-4-3, como também no 5-4-1, passando pelo 4-4-2, também pelo 4-3-2-1... por vezes, utilizando todos esses sistemas em uma mesma partida. Nesse sentido, sua principal característica, como alguém que quer vencer como fez Napoleão, é se adaptar ao seu adversário.

Entretanto, existem algumas constantes que se fazem presentes nas equipes de Abel Ferreira e elas são: dois jogadores abertos pelo lado do campo, dando amplitude ao time; dois atletas posicionados no setor entrelinhas, recebendo a bola e avançando no ataque; três jogadores para fazer a saída de bola na defesa; intensidade e agressividade na pressão após perder a posse de bola. Essas características constituem estruturalmente a identidade de seus times.

Por fim, a busca por um treinador estrangeiro se tornou uma tendência hegemônica no nosso futebol. Os clubes brasileiros, finalmente, abriram suas janelas para o mundo, assumindo que as cinco estrelas verde e amarelas no peito contam sobre o passado, mas não falam do presente. Isso, necessariamente, elevará o nível do futebol que é jogado no Brasil. Nesse cenário, nossa principal missão é honrar o legado antropofágico de Oswald de Andrade e incorporar as diferenças culturais no nosso "jeito-de-fazer" futebol.

Até porque, a chegada de gringo nenhum resolverá as mazelas estruturais do futebol brasileiro. Antes da Premier League nos descobrir, Garrincha já tinha inventado a felicidade. Reencontrar a alegria que é a prova dos nove, é só da nossa conta.

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