Aguarde...

Afinal de contas, nós estamos fazendo futebol para quem?

O futebol moderno se tornou uma bandeira, angariando militantes e opositores entre os amantes da modalidade

| ACidadeON/Araraquara

Ontem (17), a seleção brasileira venceu o Uruguai por 2 a 0. (Foto: CBF/Divulgação)
Ao invés de ser encarado como um fato histórico, o futebol moderno se tornou uma bandeira, angariando militantes e opositores entre os amantes da modalidade, convertendo-se em um objeto polarizado e contraditório.  

Em primeiro lugar, o futebol moderno é o domínio da lógica da economia capitalista dentro da administração do esporte. Como consequência, ocorre, por exemplo, a elitização dos estádios de futebol, já que o jogo é transformado em produto, o torcedor se torna consumidor e a paixão perde espaço na arquibancada para o poder aquisitivo. Não à toa, a relação entre as torcidas e os clubes é cada vez mais mediada pela mercadoria, em que as entidades agem como qualquer grande marca que quer fidelizar os seus clientes. Saem as torcidas que amam e entram os indivíduos que pagam.

Além disso, no último período, a própria televisão parou de democratizar o acesso às transmissões esportivas. No mundo em que o pay-per-view dita as regras, nem mesmo a seleção brasileira é de domínio público.

Portanto, na equação dos últimos anos, os clubes com gestões "modernas" buscam ampliar suas receitas para melhor sua infraestrutura e contratar os melhores jogadores possíveis para, com isso, disputar os títulos dos principais campeonatos. Contudo, em contrapartida, a jornada da peregrinação até encontrar as taças das conquistas, não serão acompanhadas por seus torcedores nem no estádio, nem na televisão -- quiçá, ouvidos no rádio. Para mim, a conta não fecha.

Outro vértice do futebol moderno é o desenvolvimento da tática. Entretanto, menos pelo que acontece efetivamente dentro de campo, mas, principalmente, pela forma como decidimos representar suas mudanças.

O jogo passa por transformações desde que Hebert Chapman, Béla Guttman, Rinus Michels e Telê Santana quiseram transmitir para seus jogadores a maneira como cada um deles sentia o futebol. Não foi diferente com Pep Guardiola, nem mesmo com Jurgen Klopp ou Vanderlei Luxemburgo. Assim, em um jogo dialético de perguntas e respostas, que sempre teve o resultado como ponto final, o futebol foi produzindo novas sínteses.

Entretanto, ao contrário do que se tem ventilado por aí, a metamorfose tática do ludopédio não diz nada sobre progresso. O futebol praticado nos dias atuais não representa nenhum tipo de avanço em relação ao jogo dos tempos passados. O esporte, assim como a vida, não progride em uma linha do tempo linear, em que antes de Cristo está o chutão no tiro de meta, e depois de Cristo está o goleiro que joga com os pés. Essa perspectiva, que trata um fenômeno humano e complexo como se ele fosse equivalente ao desenvolvimento das máquinas na Revolução Industrial, acaba por invalidar outras interpretações do jogo que não estão de acordo com o pensamento hegemônico.

Logo, a modernidade do futebol contemporâneo acaba sendo excludente, tanto no acesso ao jogo, como também na experiência sensível de cada um sobre o que é vivido no espaço de noventa minutos.

Por isso, em nome da democratização do esporte, é urgente perguntar: afinal de contas, nós estamos fazendo futebol para quem?

Mais do ACidade ON