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Uma página histórica da luta antirracista dentro do esporte

Foi a primeira vez, desde que o futebol começou a ser jogado, que a bola parou de rolar para que o racismo fosse vencido dentro de campo.

| ACidadeON/Araraquara

Demba Ba conversa com o árbitro Ovidiu Hategan junto com os atletas do Istanbul Basaksehir e do PSG, que deixaram o campo em virtude do episódio de injúria racial protagonizado pelo quarto árbitro. (Foto: Getty Images)

Ontem (8), uma página histórica da luta antirracista dentro do esporte foi escrita no encontro entre Paris Saint-Germain e Istanbul Basaksehir, em jogo válido pela última rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa.

Os jogadores dos dois times decidiram abandonar a partida ao verificarem que o quarto árbitro do jogo, o romeno Sebastian Coltescu, havia cometido injúria racial contra Pierre Webó, ex-jogador camaronês que trabalha como auxiliar técnico no clube turco, quando se referiu a ele como "aquele negro ali", ao pedir sua expulsão para Ovidiu Hategan, o juiz principal do confronto. Webó se revoltou e começou a perguntar: "Por que você disse negro?". Foi a primeira vez, desde que o futebol começou a ser jogado, que a bola parou de rolar para que o racismo fosse vencido dentro de campo.

Quem liderou a mobilização dos atletas foi Demba Ba, atacante francês com nacionalidade senegalesa, que enfrentou Coltescu ao dizer: "Quando você fala de um homem branco, você nunca diz esse cara branco, você diz esse cara, então, por que (quando) você menciona um jogador preto, você tem que dizer esse cara preto?". Em seguida, os jogadores do Istanbul Basaksehir e do PSG foram para os vestiários e não voltaram mais. A partida será finalizada hoje (9), no período da tarde.

Não por acaso, também no dia de ontem, completaram-se mil dias que Marielle Franco foi assassinada e, até o momento, convivemos com o silêncio ensurdecedor da justiça sobre quem foi ou quem foram os mandantes do homicídio. Da mesma forma, na última sexta-feira (4), Emily e Rebecca, duas crianças negras de 4 e 7 anos, respectivamente, foram mortas, em Duque de Caxias, com tiros de bala perdida, quando brincavam juntas em frente ao portão de casa. Não é coincidência que Marcos Vinícius, Ágatha Felix, João Pedro e tantas outras crianças negras brasileiras também tenham sido mortas impunemente vítimas de armas de fogo que, muitas vezes, foram disparadas pelas próprias forças de segurança do Estado. Assim como aconteceu no futebol, em que o crime foi cometido pelo juiz.

Portanto, quando um jogo deixa de acontecer para que o racismo seja enfrentado, não é "excesso" de politicamente correto, ou "moda", como quis sugerir um treinador português estúpido, que faltou às aulas de história do seu país que colocou os povos africanos dentro dos navios negreiros. O episódio de injúria racial contra Pierre Webó é a expressão de uma violência recorrente que legitima as balas perdidas que sempre encontram a infância de meninos e meninas de pele escura ou os joelhos que asfixiaram George Floyd e João Alberto até a morte.

Por isso, enquanto não vencermos o racismo, não há motivo para que a bola role.

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