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Entre a técnica e a magia, o resultadismo é um equívoco

O engodo resultadista defende a ilusão de que o placar final das partidas expressa a dureza implacável da realidade

| ACidadeON/Araraquara

Vágner Mancini, treinador do Corinthians. (Heber Gomes / Atlético-GO)
O mundo do futebol é dominado pela sanha resultadista, que insiste em se equivocar, ao reduzir o todo pela parte. Contudo, não como uma metonímia, mas enquanto manifestação da ansiedade do nosso tempo, que falseia uma experiência passageira como verdade absoluta. Assim foram as sentenças em relação ao trabalho de Vágner Mancini no Corinthians, após a goleada sofrida para o Palmeiras.  

Desde que assumiu o alvinegro, Mancini fez com que o planejamento corintiano escrevesse certo por linhas tortas. No início do ano, o Corinthians contratou Tiago Nunes para que a filosofia de futebol do clube fosse transformada, o que não passava de uma abstração que nem mesmo a direção do time e, talvez, nem o próprio Tiago Nunes, soubessem o que significava. Mais uma vez, conceitos de um pretenso glossário do futebol moderno são empregados sem que se tenha noção do seu sentido.

Até porque, nada diz mais sobre as ideias de futebol de um treinador e de qualquer clube do que o materialismo inexorável do futebol que suas equipes apresentam dentro de campo. Marcelo Bielsa e Pep Guardiola nunca precisaram palestrar acerca do que pensavam sobre futebol. Nós apreendemos seus times pelo que vemos e sentimos.

De qualquer modo, a intenção de transformar o Corinthians em uma equipe protagonista com a posse de bola, guardando nas estantes do museu o jogo reativo que deu ao clube títulos no início da década, fracassou com Tiago Nunes e seu ataque posicional, em que Luan era o único que podia se movimentar, com liberdade, em função da bola. Todos os outros jogadores deveriam ocupar zonas pré-definidas do campo e aguardar o passe para participarem do jogo com a bola. Entretanto, foi Mancini, ao subverter o plano elaborado por Tiago Nunes, que fez o Corinthians jogar um futebol ofensivo e eficiente.

Com Mancini, o Corinthians ampliou seu repertório de ataque ao permitir que, justamente, seus jogadores se aproximassem do setor da bola, trocando passes e gerando espaços para infiltrações. Nesse sentido, a equipe elaborou um sistema bem definido de compensações. Por exemplo, os laterais sempre estão em amplitude caso os atacantes de lado de campo flutuem por dentro, do mesmo modo que os laterais podem atuar na linha dos volantes e em direção ao centro, caso os atacantes se mantenham postados pelo lado. Individualmente, Fágner, Gabriel e Gustavo Mosquito evoluíram, do mesmo modo que Fábio Santos e Cazares se tornaram pilares para que o campo manifestasse as ideias de Mancini.

Desse modo, contratado apenas para tirar a equipe do rebaixamento, o jogo de mobilidade de Mancini fez o que Tiago Nunes não conseguiu, tornando a classificação para a próxima Copa Libertadores um objetivo tangível. Contudo, do mesmo modo que o trabalho de Vágner Mancini ainda é incipiente, a sanha resultadista já quer empregar rótulos vazios ao treinador e seu time após a goleada sofrida para o Palmeiras, por 4 a 0.

Mas, o que se passou, concretamente, foi a execução de um plano de jogo impecável por parte do alviverde, que sobrecarregou a linha de defesa corintiana ao escalar Veiga, Willian e Luiz Adriano às costas de Gabriel e Cantillo, que recebiam a bola para ataques diretos, aproveitando a marcação alta do Corinthians o que funcionou, por exemplo, na vitória contra o São Paulo. Portanto, não há nada que sentencie que treinadores portugueses são melhores do que os brasileiros, ou que o Corinthians só estava vencendo por enfrentar adversários mais fracos. O acontecido pertence ao terreno do jogo jogado.

Contudo, o engodo resultadista defende a ilusão de que o placar final das partidas expressa a dureza implacável da realidade, sem se dar conta de que, objetivamente, o que existe são apenas as metodologias de treino, os planos e modelos de jogo e as variações que disso decorre. Ao mesmo tempo, o resultadismo nega o que há de mais poético na vida vivida nas quatro linhas, porque o destino de uma partida de futebol, com seus vencedores e perdedores, sempre escapa ao controle do humano.

Com isso, entre a técnica e a magia do futebol, o resultadismo não passa de um grande equívoco onipotente.

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