Sob quais parâmetros Busquets e Gerson são comparáveis?

Foi Busquets quem permitiu que o melhor Barcelona de todos os tempos transformasse o futebol mundial para sempre

| ACidadeON/Araraquara -

Sergio Busquets, meio-campista do Barcelona, é campeão da Copa do Mundo e da Eurocopa, além de ter vencido três Liga dos Campeões. (Foto: Header Image by Imago)

Ao final da temporada de 2007/2008, o Barcelona estava em terceiro lugar no Campeonato Espanhol e tinha sido eliminado nas semifinais da Liga dos Campeões da Europa e da Copa do Rei, completando dois anos sem levantar nenhum troféu. Esse momento marcou o fim de um ciclo conduzido pelo treinador holandês Frank Rijkaard e que contou com o brilho das estrelas de Ronaldinho Gaúcho e Deco. Naquele elenco, estavam também Thierry Henry (recém-chegado do Arsenal), Samuel Etoo (titular na conquista europeia de 2005/2006), Xavi Hernández (com 28 anos), Andrés Iniesta (com 24 anos) e Lionel Messi (com 21 anos).

Em agosto de 2008, três personagens novos chegaram ao time principal do Barcelona. Pep Guardiola, que com 38 anos, havia sido campeão da terceira divisão espanhola com o Barcelona B, Gerard Piqué, repatriado para a Catalunha após quatro anos na Inglaterra e Sergio Busquets, um volante de 20 anos que contribuiu para o primeiro título de Guardiola na carreira. Nesse momento, foi dado o primeiro passo na reconstrução de um Barcelona que viria a se tornar sua melhor versão em toda a história.

Contudo, esse período é constantemente atacado por um revisionismo histórico enviesado, que tenta transformar Guardiola e Busquets em meros auxiliares de luxo de grandes craques que, naturalmente, já iriam vencer tudo o que venceram -- tese que não se sustenta ao passar pelo crivo da realidade. É evidente que Xavi, Iniesta e Messi fizeram de Guardiola um treinador melhor e de Busquets um jogador mais completo. Entretanto, a recíproca também é verdadeira: os três craques que compartilharam o pódio da Bola de Ouro em 2010 só se tornaram o que são hoje porque conviveram com Guardiola e Busquets. Se assim não fosse, o melhor Barcelona de todos os tempos já teria nascido antes.

Em relação ao volante, há quem tente depreciar sua qualidade técnica ao rotulá-lo como mero responsável pelo "trabalho sujo" que permitia aos gênios da técnica que brilhassem nos gramados. Não há equívoco maior do que esse.

Foi Busquets quem tornou possível que o Barcelona de Guardiola tivesse maior profundidade no momento ofensivo ao cumprir com maestria a função de um volante que compõe a linha dos defensores quando a equipe se organizava para atacar -- para desempenhar esse papel, a inteligência tática e qualidade para reter a posse de bola são recursos básicos (e escassos para a maioria dos jogadores). Do mesmo modo, era o meio-campista quem coordenava os movimentos de pressão da equipe, dependendo de sua leitura para compactar as linhas e subir em bloco com a missão de recuperar a bola o mais rápido possível.

Em síntese, Sergio Busquets foi para Pep Guardiola o que ele mesmo havia sido para Johan Cruyff. Assim como o Guardiola jogador se tornou um pilar de sustentação do Dream Team, foi Busquets quem permitiu que o melhor Barcelona de todos os tempos transformasse o futebol mundial para sempre. Sem ele, isso não seria possível.

Dito isso, portanto, sob quais parâmetros Sergio Busquets e Gerson são comparáveis? A resposta é uma só: nenhum.

O problema dessa comparação é que ela não fala sobre o futebol de Gerson, que têm feito história no maior clube do futebol brasileiro e, hoje, está entre os melhores meio-campistas do país, mas ilustra o nosso vício analítico em equiparar jogadores e times do Brasil com contextos que só servem para denunciar a nossa desigualdade.

A superação da inferioridade estrutural do futebol brasileiro não se dará através de ilusões que reparam a nossa autoestima, mas através de transformações radicais na organização do nosso jogo. Ainda assim, será difícil trazer ao mundo um jogador melhor do que Sergio Busquets.