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Deus, além de ser um cara gozador, também é afeano

Mais um ponto para o anjo e, claro, para a primeira treinadora mulher a conquistar a Copa Libertadores da América em toda história

| ACidadeON/Araraquara

A Ferroviária se sagrou bicampeã da Copa Libertadores. (Foto: Conmebol)
Se um anjo, daqueles que parecem tortos, interrompesse o sono de Lindsay Camila e prenunciasse, durante um sonho, qual seria a trajetória da Ferroviária na Copa Libertadores, provavelmente ela acordaria e discaria o número da sua analista no telefone.  

"Lindsay, nós precisamos conversar sobre os seus delírios de onipotência", diria a terapeuta. A sessão prosseguiria em que relações familiares e afetivas, símbolos e significados e memórias do passado, circulariam durante o encontro para tentar dar sentido ao que foi sonhado naquela noite.

Contudo, o recado do sonho vivido era um só: às vezes, a vida é mais Carlos Drummond de Andrade do que Sigmund Freud. O anjo não era uma esfinge.

Após o empate contra o Peñarol, que sucedeu a goleada sofrida contra o frágil time do Libertad-Limpeño, as sentenças condenatórias no purgatório da bola já começaram a ser redigidas pelos entendidos do assunto (entre eles, esse que vos escreve). Com a mesma arrogância diagnóstica que marca o trabalho de terapeutas ruins, os arautos da crônica esportiva já diziam qual seria o final da história. Ledo engano de quem esquece que o jogo é jogado.

Contra a Universidad do Chile, Lindsay Camila, que demonstra ser devota a um Poder Divino, descobriu o que todo araraquarense já sabe. Deus, além de ser um cara gozador que adora brincadeira, também é afeano.

Dos quatro gols marcados contra a equipe chilena, nenhum deles surgiu de uma jogada trabalhada com bola no chão: dois tentos em lances de bola parada, outro com um cruzamento fortuito para a área e um que nasce de um desarme ainda na saída de bola do adversário. Ana Alice não é artilheira, tampouco Nicoly costuma balançar as redes e, convenhamos, o gol de Rafa Mineira foi contra.

As goleadoras improváveis das Guerreiras Grenás, em uma goleada tão improvável quanto, confirmavam a tese do anjo nada torto. O enredo que levaria o time à Glória Eterna não seria convencional.

É evidente que nós podemos gastar linhas para falar, justamente, sobre o ajuste da linha defensiva da Ferroviária, sobre a evolução da equipe nas jogadas de bola parada ofensiva (mérito, sobretudo, da auxiliar técnica Roberta Batista), do reposicionamento de Luana (a melhor jogadora do time no torneio) como volante e de Sochor como meia-atacante. Um time que sofreu gols em todos os jogos da fase de grupos e, durante o mata-mata, só viu sua defesa ser vencida em uma oportunidade (na final, em uma cobrança de pênalti). Contudo, não foi nada disso que fez a cor grená tingir a América pela segunda vez.

A taça foi levantada porque a cabeçada de Castañeda, nos acréscimos, foi barrada pela trave, enquanto a cobrança de falta de Sochor, buscando Ana Alice no segundo pau (mesma jogada que resultou no gol contra o River Plate), contou com falha de Tapia para abrir o placar. O jogo coletivo é elaborado através da tática, mas são os caprichos do Deus do futebol que definem se a bola bate na trave ou se a goleira erra. E se Deus é afeano, Luciana é a padroeira do clube.

Sobre os delírios de onipotência, Lindsay já se pronunciou com a taça em mãos: "não sou a melhor hoje, nem era a pior ontem". Mais um ponto para o anjo e, claro, para a primeira treinadora mulher a conquistar a Copa Libertadores da América em toda história, que não nasceu para ser gauche na vida.

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