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A "Superliga" seria a radicalização da elitização do futebol

A Superliga é uma tentativa de impedir que novas equipes sejam capazes de crescer e conquistar o lugar de times que, hoje, são gigantes

| ACidadeON/Araraquara

O último título europeu da Inter de Milão aconteceu na temporada 2009/10. (Foto: Getty Images)
Nesse final de semana, houve um golpe de Estado no futebol europeu. Um conjunto de donos de clubes de futebol, que em nada representam suas torcidas e tratam o futebol (que é um bem público) como mercadoria para a satisfação de seus interesses privados, decidiram sentenciar o fim da história do jogo, forjando um campeonato que impediria a mobilidade na ordem de grandeza entre as equipes. 

A fajuta "Superliga" surge porque existe um conflito econômico entre as principais potências europeias e a UEFA. Basicamente, alguns clubes importantes do Velho Continente argumentam que mereceriam receber mais dinheiro do que já ganham para disputar a Liga dos Campeões. Por isso, querem criar um outro torneio em que 15 equipes fundadoras estariam presentes em todas as edições, independentemente do seu desempenho, e outros 5 times se classificariam ano após ano, segundo um determinado critério.

O grupinho do Tio Patinhas (que é Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, com financiamento da JP Morgan) contou inicialmente com: Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid, Liverpool, Manchester United, Chelsea, Manchester City, Tottenham, Arsenal, Juventus, Inter de Milão e Milan. Faltariam outras três equipes para completar o golpe. Todavia, hoje, Chelsea e Manchester City já desistiram da empreitada por conta pressão pública e o mesmo deve acontecer com os outros clubes.

Nesse sentido, é importante frisar que: em primeiro lugar, a UEFA já desenvolveu um novo formato para a Liga dos Campeões (mesmo que pior) com mais jogos, para angariar mais recursos; em segundo lugar, as próprias federações nacionais e os outros clubes, assim como treinadores, jogadores e torcedores dessas mesmas equipes que comporiam a "Superliga", também protestaram contra a sua criação. Ou seja, só os donos do dinheiro são a favor.

Porém, se a "Superliga" vigorasse (o que parece improvável), ela destruiria o futebol como conhecemos atualmente.

A "Superliga", antes de mais nada, ataca a competitividade do jogo. É uma tentativa de impedir que novas equipes sejam capazes de crescer e conquistar o lugar de times que, hoje, são gigantes. Isso fica evidente quando clubes como o Arsenal, que possuem um peso histórico imensurável, são incluídos no grupo mesmo que, nesse momento, ocupe a nona posição do Campeonato Inglês e nunca tenha colocado um único título europeu em sua prateleira. O mesmo vale para o Tottenham e até mesmo para o Milan, que é o segundo maior campeão da Liga dos Campeões, com sete títulos, mas que não disputa o torneio desde 2014 e que na última vez que venceu o Campeonato Italiano, tinha Alexandre Pato como titular. No último período, Sevilla, Atalanta, Napoli e até mesmo o Leicester conseguiram ser mais competitivos em nível nacional e europeu do que esses dois times.

Do mesmo modo, o Manchester City, mesmo que seja um conglomerado bilionário que conseguiu, com isso, vencer títulos nacionais através da contratação de grandes jogadores e treinadores, ainda não alcançou nenhum sucesso em nível europeu. Assim, clubes como Ajax, Porto, Benfica e até mesmo Leeds United, Nottingham Forest e Estrela Vermelha, possuem mais história continental do que os citizens.

Além disso, com esse golpe de Estado, alguns times querem se salvar das dívidas que eles mesmos criariam, como é o caso do Barcelona e da Juventus. Nesse cenário, a queda nas receitas em virtude da pandemia acelerou o processo da "Superliga". Assim, ao invés de trabalharem para desinflacionar o ambiente do futebol, as potências europeias militam pela desigualdade, para que eles ganhem ainda mais dinheiro (e, com isso, sanem suas contas deficitárias), enquanto outras equipes disputarão torneios desvalorizados. Como se a vida do Real Madrid fosse mais difícil que a do Levante.

Por fim, um dos argumentos para que o campeonato seja realizado, é a sua capacidade de gerar entretenimento, já que grandes jogos seriam transmitidos todas as semanas -- banalizando confrontos históricos que só possuem valor, justamente, por sua raridade. A irrelevância dos clássicos nos campeonatos estaduais são um exemplo disso.

A inclusão do futebol como produto da indústria cultural é inevitável, considerando o sistema econômico e político que organiza as nossas relações sociais (o capitalismo, no caso). Contudo, tratar um esporte que mobiliza paixões e identidades como se fosse um programa de auditório ou qualquer outro produto que você adquire em um serviço de streaming, é uma atitude de quem não tem a menor paixão pelo jogo, só pelo dinheiro. É a radicalização da elitização do futebol.

É ponto pacífico que, para que o futebol seja profissionalizado, os clubes precisam ser capazes de criar valor e, consecutivamente, gerar receitas. Entretanto, quem pagaria o preço pela criação da "Superliga" seriam as equipes que não foram incluídas no grupo do Tio Patinhas. O nome disso é injustiça.

Como o torcedor afeano sabe, o futebol tem que ser feito para que pessoas como o nosso Lua sempre estejam próximas dos times que amam. O futebol popular e democratização sempre serão o melhor caminho.

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