Em Cotia, nascem os heróis dos títulos do São Paulo

Hernán Crespo, que viveu o Milagre de Istambul como um pesadelo, sabe que não há final vencida até que o juiz determine que o tempo acabou

| ACidadeON/Araraquara -

Quando a bola sobrou para Luan, na entrada da área, qualquer jogada faria mais sentido do que a finalização. Exatamente seis jogadores palmeirenses barravam a passagem da bola até o barbante defendido por Weverton. O tráfego estava engarrafado. Somente um chute digno de craque poderia resultar em outro desfecho que não fosse o bloqueio dos adversários.

Luan, com 22 anos, fez sua estreia como jogador profissional em 2018 e, desde então, marcou apenas um único gol. No domingo, sua finalização, feita com mais coragem do que juízo, atualizou essa estatística e também escreveu a última linha de um capítulo que narrava nove anos de angústia. O imponderável rascunha certo por linhas tortas. No meio do caminho, entre Luan e o gol, tinha um Felipe Melo (que, fora dos gramados, não cansa de marcar gols contra).

Sua tentativa em desviar da bola foi vã (lembrando Fabio Wajngarten, Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello, em suas depoimentos na CPI). O repique em sua coxa foi fatal e impediu qualquer reação do melhor goleiro do futebol brasileiro. Com 1 a 0, quem vencia era o São Paulo.

Para os últimos 45 minutos, Abel Ferreira, que vê futebol como um enxadrista, se empenhou para impedir que o tabu se desfizesse. No primeiro tempo, a opção em armar suas peças com Danilo Barbosa entre os titulares e Rony deslocado pela direita, para impedir que Léo fosse participativo na saída de bola, não surtiu o efeito planejado. O futebol é jogado para além dos limites da razão. Liziero, que vive seu melhor momento desde 2018, quando se tornou titular (e volante) com Diego Aguirre, salvou a abertura tricolor. Com isso, outro Palmeiras apareceu na segunda etapa, com Danilo e Patrick de Paula no time. Ficar com a posse de bola era imperativo.

Do outro lado, o São Paulo jogava como quem tenta segurar o destino com as próprias mãos. Hernán Crespo, que viveu o Milagre de Istambul como um pesadelo, sabe que não há final vencida até que o juiz determine que o tempo acabou.

Contudo, um jogador são-paulino deixou o banco de reservas para diminuir a aflição de mais de 16 milhões de pessoas. Não falo de Luciano, que marcou o gol do título e pôde entregar uma taça para o clube, depois do tanto que tentou no ano passado, quando a artilharia do Brasileirão não foi o suficiente para garantir a conquista. Falo de Rodrigo Nestor, que não é onipotente para conter o destino entre seus dedos, mas é capaz de controlar o jogo com a bola nos pés.

Foi ele quem assistiu Luciano para que o segundo gol acontecesse. Do mesmo modo, é dele o cruzamento para que o mesmo Luciano, com a cabeça, ajeitasse a bola para Gabriel Sara, em condições de transformar a vitória em um flerte com uma goleada. Weverton fez a defesa.

Luan, Liziero, Rodrigo Nestor e Gabriel Sara. Em comum, todos são filhos de Cotia, como também é Lucas Moura, protagonista do (até então) último título do clube, no longínquo 2012, quando o São Paulo venceu a Sul-Americana no jogo que nunca terminou, contra o Tigre da Argentina. Ainda no primeiro tempo, Lucas já havia colocado ponto final na partida.

Que o São Paulo nunca se esqueça onde é que nascem os heróis dos títulos do clube.

Na final do Paulistão, o Palmeiras não teve medo de perder. Foi o São Paulo quem teve mais vontade de ganhar.