A racionalização do jogo e a influência de Guardiola

Pep Guardiola estabeleceu um novo paradigma que Herbert Chapman, Rinus Michels e Telê Santana jamais imaginariam alcançar

| ACidadeON/Araraquara -

 

Encontro entre Pep Guardiola, técnico do Manchester City, e Thomas Tuchel, à época técnico do Borussia Dortmund. (Foto: IMAGO / Imaginechina)
Jürgen Klopp, Hans Flick e Thomas Tuchel. Os últimos treinadores que venceram a Liga dos Campeões da Europa são alemães e isso não é um mero capricho do acaso.

Desde 2008, a vida de quem ama futebol não é mais a mesma. Naquele ano, a mãe do jogo bem jogado trouxe ao mundo o melhor Barcelona de todos os tempos, que nasceu com a vocação para questionar tabus e fundar novos paradigmas dentro das quatro linhas. Pep Guardiola foi a parteira. Lionel Messi era o menino prodígio da família.

Guardiola tornou-se o grande mentor de um profundo processo de racionalização do jogo de bola, em que uma nova hermenêutica dos espaços (a sua versão do Jogo de Posição) foi vivida como o anúncio de um tempo que estava por vir. Uma sistematização radical do futebol, em que as posições e funções foram desenvolvidas com outros vieses de complexidade. Em quatro anos, 14 títulos foram agregados nas estantes do Barcelona.

Nesse sentido, Pep Guardiola estabeleceu um novo paradigma que Herbert Chapman, Rinus Michels e Telê Santana jamais imaginariam alcançar, mesmo que também tenham transformado o ludopédio com suas equipes. Como consequência perversa, a expectativa em relação ao grau de influência de um treinador nos destinos de um time e de uma partida foi redimensionada. O "mundo moderno" trouxe consigo uma nova exigência: a onipotência dos técnicos em relação ao jogo.

Um imperativo absolutamente contemporâneo. Em oito anos de Milan, o italiano Carlo Ancelotti venceu uma única vez o Campeonato Italiano, conquistou outras duas Ligas dos Campeões e perdeu uma contra o Liverpool, quando tinha um time melhor e abriu 3 a 0 de vantagem ainda nos 45 minutos iniciais. Hoje, essa trama não existiria, já que o período sem taças entre 2004 e 2006 taxaria o treinador como qualquer-coisa que inviabilizaria sua continuidade no cargo. Na temporada seguinte, novamente contra o Liverpool, com quatro mudanças em relação ao time titular que havia perdido a final para os ingleses dois anos antes, o segundo título da Liga dos Campeões foi conquistado.

Em 2013, Guardiola desembarcou na Baviera para tentar transformar a cultura de jogo do Bayern de Munique, mas ao final de sua passagem, acabou por influenciar também todo o futebol alemão. Nesse período, Jürgen Klopp era treinador do Borussia Dortmund, Thomas Tuchel comandava o Mainz 05 e Hans Flick trabalhava como auxiliar técnico de Joachim Löw na seleção que fez sete gols no Brasil e celebraria o título mundial no Maracanã. Todos viveram o "efeito Guardiola" na atmosfera germânica. Com as mudanças infraestruturais no futebol do país e as provocações de Ralf Rangnick, a Alemanha criou um terreno fértil para gerar uma simbiose com os ideais de Pep Guardiola. Assim, a racionalização do jogo foi incorporada ao gegenpressing, o melhor antídoto para enfrentar times que ficam com a posse de bola.

Por isso, no último sábado (29), nós tivemos um encontro que, implicitamente, narrava a história recente do futebol mundial. Gündogan como volante, apoiado por De Bruyne, Phil Foden e Bernardo Silva, não foi o bastante para sustentar a troca de passes que tinha como objetivo impedir que o Chelsea imprimisse ritmo em seu jogo. O gol do título de Havertz, um jovem alemão, deu ao jogo o simbolismo que ele merecia.

O título do Chelsea de Thomas Tuchel é um novo capítulo que está sendo escrito no livro do jogo.  

Em outubro de 2012, antes da aventura em Munique, Garry Kasparov já havia avisado Guardiola quem seria o seu principal adversário: "O tempo, Pep, o tempo...".