Depois de 28 anos, acomode-se tranquilo em seu posto, Messi

Os deuses e deusas do futebol aproveitaram o infortúnio histórico que foi a Copa América brasileira para acertar as contas com o destino de um gênio

| ACidadeON/Araraquara -

Messi é abraçado por Acuña e De Paul, logo após o apito final. (Foto: Copa América / Divulgação no Twitter).
A Cepa América foi um fracasso. Em campo, os gramados maltratados do futebol brasileiro impediram que a peleja fosse bem jogada e as seleções do continente também não são mais o que foram em um passado recente. 

O Chile, bicampeão da América, não pariu uma juventude talentosa que pudesse ser herdeira daqueles que fizeram o país experimentar a sensação de conquistar um título. A Colômbia, 5ª colocada no Brasil, em 2014, e 9ª colocada no último mundial, ainda não sabe viver sem José Pekerman. O Uruguai, de Fede Valverde, Bentancur, Nico de la Cruz e Facundo Torres, um dia será. Nem mesmo o Peru, reforçado com o italiano Gianluca Lapadula, superou a própria versão vice-campeã continental, de 2019.

Desconfio que esse seja o pior momento das seleções sul-americanas nos últimos dez anos. A pandemia é um agravante, considerando que os encontros para treinos e partidas, que já eram espaçados, tornaram-se mais escassos nesse contexto.

Do ponto de vista epidemiológico, o vírus venceu por 7 a 1. Quase duas centenas de pessoas foram infectadas durante a competição, entre jogadores e membros de comissão técnica, trabalhadores terceirizados, que prestavam serviço durante o evento, e profissionais da própria Conmebol -- da arbitragem aos funcionários da logística. Para finalizar, a cepa, B.1.612, originária da Colômbia, foi detectada em Cuiabá e o campeonato é apontado como o vetor para a transmissão dessa variante no país.

A final com público (de convidados da Conmebol) é o último símbolo para representar um país divorciado com o bom senso.

Entretanto, os deuses e deusas do futebol aproveitaram o infortúnio histórico que foi a Copa América brasileira para acertar as contas com o destino de um gênio. Irônicos que são, ao redigir o desfecho do torneio, mais uma vez, escreveram certo em linhas tortas.

Messi teve quatro chances. Em 2007, acompanhado por Riquelme, Verón, Aimar e Tévez, foi vencido pelo time operário de Dunga, que na final, jogou o que ainda não havia jogado. Quando o Rio de Janeiro foi a capital do mundo do futebol, o gol de Gotze impediu que a ferida aberta pelos próprios alemães sangrasse um pouco mais. Já em 2015 e 2016, o ineditismo chileno pedia passagem. Nesse período, o gênio quase desistiu.

Em 2021, mais uma chance -- quem sabe, a última. Messi chegou na final como artilheiro e líder de assistências da competição. Foram 4 gols marcados e 5 gols servidos -- idêntico ao que fez na Copa América de 2016. No reencontro com o Maracanã, palco do vice-campeonato na Copa do Mundo, a Argentina quis dançar seu tango contra um Brasil que não encontra razão para celebrar o carnaval.

Se antes da decisão, Messi jogou tudo o que sabia, na finalíssima, foram 90 minutos da mais humana falibilidade do craque, que parecia declamar que, sozinho, ele jamais conseguiria vencer. Precisou de De Paul e Di Maria ao seu lado, assim como Maradona pôde dividir o fardo de 1986 com Valdano e Burruchaga. Além disso, se Messi necessitou das forças de outrem para ganhar, os seus companheiros também jogaram porque precisavam vencer por Messi. O abraço, após o apito final, foi o gol mais bonito de toda Copa América.

No dia 26 de novembro do ano passado, a Argentina parecia uma pátria órfã. No dia de 10 de junho de 2021, nós tivemos a certeza de que, entre nós, Deus nos deixou com seu filho.

Depois de 28 anos, acomode-se tranquilo em seu posto, Messi. Ele sempre foi seu, de fato e de direito. Felizmente, la pelota no se mancha.