Contra o Corinthians, o acaso precisará estar em campo

No segundo tempo, a reorganização defensiva da Ferroviária possibilitou que o time recuperasse o fôlego

| ACidadeON/Araraquara -

Ferroviária e Santos ficaram no empate na Vila Belmiro (Foto: Divulgação/Tiago Pavini/AFE)
Lindsay Camila enxerga o futebol através do seu sistema. Para treinadores e treinadoras que vivem o jogo com paixão, o estilo de suas equipes são como os valores que orientam as diferentes ideologias no mundo político. Alguns são mais flexíveis em suas concepções de mundo, enquanto outros são partidários da ortodoxia. A treinadora afeana é do time dos obstinados. 

Suas escolhas, sempre e sempre, buscam aumentar a agressividade na marcação-pressão, adiantar as jogadoras desde o primeiro instante que estejam se defendendo e dar velocidade na transição ofensiva. Ou seja, roubar a bola o mais rápido possível, distante da própria baliza, e chegar até a área adversária em tempo igual ou menor. Dinâmica coletiva que se realiza em um 4-2-3-1, em que nomes e funções são modificados, mas a estrutura é constante.

Na decisão contra o Santos, vimos Amanda, volante de origem, atuando como jogadora mais avançada no setor ofensivo e Suzane, meia-atacante de ofício, desempenhando o papel de segunda volante. Com Amanda, o time ganharia força para marcar a saída de bola santista. Já Suzane, poderia ser o elo para os contra-ataques. O encadeamento lógico, justificado no mundo das ideias e, provavelmente, ensaiado em treinamento, foi frustrado pela realidade após 30 segundos de peleja e uma bola na trave.

Na etapa inicial, as chances de gol criadas pelas Sereias da Vila foram inúmeras, tal qual os impedimentos, duvidosos em boa parte das marcações. Sole James precisou postergar a comemoração de seu gol, porque a primeira vez que balançou as redes, equivocadamente, não valeu. O Santos criou com passes e lançamentos em profundidade, explorando a altura em que joga a linha defensiva da Ferroviária, que vive a eterna tensão, sintetizada no grão de areia de uma ampulheta, de decidir o momento exato em que as defensoras devem deixar seu posto para colocar as atacantes adversárias em posição irregular.

Inclusive, Cristiane, vocacionada em fazer gols, jogou como uma legítima camisa 10.

Por outro lado, a atuação de Luciana, padroeira das Guerreiras Grenás, foi determinante para permitir que, nos 45 minutos que restavam, a Ferroviária pudesse conter a angústia contra um adversário que merecia estar vencendo por quatro ou cinco gols de vantagem.

No segundo tempo, o Santos se manteve dominante, mas a reorganização defensiva da Ferroviária possibilitou que o time recuperasse o fôlego enquanto, no ataque, a melhor jogadora em campo decidia a vaga nas semifinais. "O" acaso, ao guiar mais um golaço de Rafa Mineira e impedir que Fer Palermo impedisse o gol de Aline Milene, consentiu que o jogo terminaria empatado.

Mesmo em suas piores noites, as Guerreiras Grenás são capazes de escrever um final feliz. Nos grandes jogos, o time conquista pelo espírito, através de alguma conjunção metafísica que a razão é incapaz de compreender.

Contra o Corinthians, o acaso precisará ser escalado.