Publicidade

Blogs e colunas   -   Vida em quatro linhas

Na seleção, a carta de intenções de Tite foi publicada

Nesse sentido, tendo em vista o atual modelo de jogo do técnico, há um problema tático para encaixar Vinícius Junior

| ACidadeON/Araraquara -

Vinícius Junior é um dos principais destaques do Real Madrid na atual temporada. (Foto: Albert Gea/Reuters)
 

Na sexta-feira (29), Tite convocou os jogadores que disputarão as duas últimas partidas da seleção brasileira, em 2021, contra Colômbia e Argentina, pelas Eliminatórias. Os atletas que atuam no Brasil ficaram de fora -- com a exceção de Gabriel Chapecó, goleiro reserva do Grêmio --, para não desfalcar os times nacionais na reta final do Campeonato Brasileiro, tendo em vista que a competição prossegue durante as Datas FIFA. Uma decisão conveniente para a CBF, uma entidade sem presidente, inoperante na resolução do problema estrutural que é o calendário do futebol brasileiro, mas que cria problemas que não deveriam existir para o treinador do Brasil. 

Na lista, os nomes incontestáveis seguem presentes, como Alisson, Ederson, Marquinhos, Thiago Silva, Casemiro, Neymar, entre poucos outros. Gabriel Jesus, peça relevante para o Manchester City de Pep Guardiola, segue com a confiança de Tite, mesmo com as recentes atuações ruins vestindo a camisa verde-amarela. Com 24 anos, não podemos nos esquecer que sua melhor versão ainda está por vir. Por outro lado, Fred, Lucas Paquetá e, principalmente, Antony e Raphinha, conquistaram espaço e dificilmente ficarão de fora das próximas convocações.

Quem ganhou uma nova oportunidade foi Roberto Firmino, que está novamente jogando bem no Liverpool. Embora, no Brasil, nunca tenha atingido o nível que mostrou na Inglaterra, considerando a maneira como Tite vem repensando a função de centroavante na seleção brasileira, com maior mobilidade para participar da articulação das jogadas de ataque, é possível que um dos melhores "falsos 9" do mundo, finalmente, encontre-se na seleção. No mais, a principal surpresa foi o retorno de Philippe Coutinho que, desde que chegou ao Barcelona, nunca mais foi o mesmo, incluindo o período em que esteve emprestado ao Bayern de Munique. Ocupando a vaga que seria de Éverton Ribeiro, que não foi convocado por impedimento da CBF, o brasileiro mais talentoso depois de Neymar recebeu uma nova chance para expressar o seu potencial latente.

Sobre as ausências, há um espanto justificado com a não-convocação de Vinícius Junior, que nunca esteve tão bem no Real Madrid -- ontem (30), o brasileiro marcou os dois gols da vitória do clube, sobre o Elche, por 2 a 1, pelo Campeonato Espanhol. Outros dois jogadores que ficaram de fora e merecem ser lembrados são Bruno Guimarães, do Lyon, e Claudinho, do Zenit.

O volante vive um momento melhor do que Gerson, que ainda não se consolidou no Olympique de Marselha e esteve mal quando entrou em campo pelo Brasil, e cumpre todos os requisitos necessários para disputar uma vaga com Fred no time titular. Já o meia-atacante, está mantendo, no futebol russo, o mesmo padrão que mostrou no RB Bragantino, o que justificaria ser chamado, em vez de Coutinho.

Já no caso de Vinícius Junior, sua ausência é sintomática, revelando quais são as intenções de Tite para o desenvolvimento do jogo coletivo da seleção brasileira.

Os pontas convocados pelo treinador, que possuem drible e velocidade para o um-contra-um, são canhotos (Antony e Raphinha), já que o time buscará ter amplitude pela direita, usando o "pé invertido". Pela esquerda, quem oferecerá largura são os laterais (Alex Sandro e Renan Lodi). Os atacantes destros possuem características de infiltração e são dotados de força física para jogar centralizados (Gabriel Jesus e Matheus Cunha, assim como Richarlison, que não foi convocado), com Roberto Firmino sendo uma opção de criação e mobilidade.

Assim, tudo indica que Tite está mais preocupado em cristalizar o que funcionou no primeiro tempo contra a Colômbia e no melhor jogo da equipe desde a Copa do Mundo de 2018, quando venceu o Uruguai -- o que é compreensível, levando em conta a proximidade do mundial e que o time ainda não formou sua identidade. Nesse sentido, tendo em vista o atual modelo de jogo do técnico, há um problema tático para encaixar Vinícius Junior, porque isso significaria a saída de Raphinha entre os titulares e a presença de um lateral-direito que oferecesse amplitude pelo setor, para que o atacante revelado pelo Flamengo atuasse pela esquerda, com o "pé invertido".

Contudo, em contrapartida, essa escolha restringe o horizonte de possibilidades da seleção brasileira e a "dependência do previsível" foi um dos principais problemas do Brasil na última Copa do Mundo.

A carta de intenções está publicada e as convocações de 2022 definirão os caminhos que Tite seguirá. Hoje, o que parece ser uma solução, pode se tornar um problema no futuro. E a resposta, possivelmente, passará por um ajuste que fará Neymar, Raphinha e Vinícius Junior estarem juntos dentro de campo.

Vida de Coach

Sobre o colunista

João Túbero Gomes da Silva é cientista social em formação, cronista esportivo e torcedor da Ferroviária. Busca pensar o futebol em sua complexidade, nas mais variadas vertentes que o jogo sintetiza em si.

Publicações



Facebook



Publicidade

Publicidade