Aguarde...

ACidadeON Araraquara

boa

Atividades manuais ajudam no equilíbrio emocional e curam

Num universo dominado pelo digital, pessoas de diferentes perfis redescobrem o prazer das atividades manuais em busca de expressão, concentração e prazer

| ACidadeON/Ribeirao

Quando a médica brasileira Nise da Silveira apostou na arte para tratar de seus pacientes internados em um hospital psiquiátrico na década de 1940, foi descreditada, julgada, presa. Imagine, problemas da mente sendo trabalhados com criatividade artística? Impossível, à época. Sua história, retratada no filme Nise no coração da Loucura (dirigido por Roberto Berliner), mostra uma trajetória apoiada em ciência, psicologia e disrupção e que influenciou correntes da área de saúde até os dias atuais.  

Hoje, em meio à dominação tecnológica liderada pelos smartphones que devoram nosso temo e concentração, os trabalhos manuais reconquistaram seu espaço entre pessoas que buscam a conexão com seus interiores e cura para diferentes problemas físicos e emocionais. 
 
A volta dos movimentos pelo crochê  

Há pouco menos de um ano, a advogada Armênia Passos, 48, sofreu um acidente de carro e, por conta do impacto, perdeu os movimentos da mão e passou a ter crises severas de labirintite. Após fisioterapia, medicação e terapias convencionais, nada de resultado: as mãos de Armênia estavam cada vez mais rígidos. Foi então que, por orientação do seu ortopedista, começou a frequentar aulas de crochê há dois meses.  

"É um alívio ver os movimentos voltando devagar e ainda mandar a ansiedade pós-acidente embora. Aqui tenho meu momento, sem filho, sem marido, sem trabalho, é uma hora só minha", diz a profissional, acostumada na rotina dos cálculos trabalhistas. "É uma terapia antiga e hoje entendo porque a minha mãe, que era mineira, era tão equilibrada. Ela fazia muito bordado e crochê", afirmando que essa é também uma maneira de resgatar velhos hábitos que foram abandonados com a vida corrida.     
 
A advogada Armênia Passos: crochê devolveu os movimentos das mãos (Foto: Francine Micheli)

Artesanato para meninos e meninas  

O crochê é um dos cursos oferecidos pelo Espaço Mariagulha, em Ribeirão Preto, onde Armênia está matriculada. Mas há também aulas de costura, bordado, patchwork, macramê e outras voltadas à arte manual. Para Rebeca Ortolan, 40, sócia-proprietária do espaço que também é uma loja colaborativa -, as atividades devem ser estimuladas em todas as idades.  

"Queremos tirar crianças e adultos do mundo virtual e colocá-los no mundo real. Temos crianças, por exemplo, muito difíceis de reter a atenção, mas outras vêm com a aptidão naturalmente para a atividade manual", diz. Ainda de acordo com a empresária, mesmo com poucos meninos participantes e um preconceito exclusivamente vindo dos pais, a divulgação dos cursos é clara: tudo é para meninos e meninas. As inscrições para os cursos de férias estão abertas.  

Dos aviões para os sabonetes  

Quem conhece a empresária Amanda Pazemecxas em sua saboaria artesanal, toda delicada e cercada de coisas fofas e cheirosas, nem imagina a história por trás da sua dedicação aos produtos artesanais.  

Depois de 15 anos trabalhando no aeroporto Leite Lopes como mecânico aeronáutico e em contato constante com produtos tóxicos como graxa e óleo hidráulico, decidiu mudar de vida. Como ela precisava tomar vários banhos por dia, desenvolveu uma alergia fortíssima aos sabonetes comuns, o que a fez começar a estudar maneiras de desenvolver produtos hipoalergênicos.   
 
A ex mecânico aeronáutico Amanda Pazemecxas e os sabonetes. Hobby que virou negócio  (Foto: Francine Micheli)
   
O trabalho artesanal caseiro foi se aprimorando com a ajuda do marido, que derrubou a área de lazer da casa para construir um minilaboratório. Há menos de um ano, após surpreender os chefes com o pedido de demissão, inaugurou sua saboaria artesanal no centro de Ribeirão. 
 
"Aos 18 anos, meu filho desenvolveu um quadro depressivo e para tentar ajudá-lo, o trouxe para trabalhar comigo. O resultado foi incrível para ele e hoje muitos dos participantes das oficinas têm depressão ou algum outro problema psicológico", diz a empresária, que também dá aulas gratuitas de sabonetes, máscaras, cremes em sua loja. "Quando a pessoa vê que é capaz de produzir algo, de realizar alguma coisa, enxerga sua capacidade e sua autoestima é renovada", explica.  

O mobiliário da loja, inclusive, foi todo feito pelo marido de Amanda, que adora marcenaria amadora.  

Expressão pela cerâmica  

Há mais de 40 anos envolvido com estudos a arte ceramista, o então diretor da faculdade de fotografia do Senac São Paulo, Roberto Schumaker, mudou-se para Ribeirão Preto há 16 e, já aposentado, passou a se dedicar integralmente à argila.  

Em sua casa-ateliê, cria maravilhas. E compartilha seus conhecimentos e bom humor com 30 alunos dos mais diferentes perfis. Para ele, o trabalho com a argila estimula o respeito à natureza de nós mesmos. Na produção, há que esperar o tempo da argila, do forno, da natureza. E não adianta ter pressa.  

"A cerâmica tem função terapêutica. Trazemos concentração, reminiscências passadas e informações do nosso inconsciente durante o processo de criação", explica Roberto, contando que se surpreende com a sensibilidade dos alunos que, às vezes, atuam com trabalhos burocráticos ou muito metódicos e têm uma criatividade inimaginável.   

Nas aulas, a argila é trabalhada para a forma, depois passa pelo processo de secagem que incluir um forno de alta temperatura e depois é esmaltada. O esmalte é produzido pelo próprio artista também.  

Segundo Roberto, há uma tendência em se valorizar o feito à mão. "Vivemos um mundo onde tudo é de plástico, descartável, industrializado, comprado, artificial. Quando alguém pega um bloco de argila e dali produz algo com a sua identidade, é maravilhoso. A tecnologia cansa e acho que tendemos a nos voltar para as coisas mais primitivas do homem", diz.   
 
Cerâmica devolveu o equilíbrio à Diva Perlla Abdalla (Foto: Francine Micheli)
E quem concorda é a aluna Diva Perlla Abdalla, 55, que deixou a arquitetura para se dedicar à cerâmica. Para ela, aprender a lidar com o tempo da argila ajudou a domar a ansiedade e melhorou sua centralidade. "Ano passado eu não conseguia equilibrar a argila no torno. Caía toda hora. Depois fui entender que eu também estava em desequilíbrio por conta de um período difícil na minha vida. Quando resolvi meus problemas, consegui de cara equilibrar a argila", conta. "Se eu estou ansioso e tenho pressa de tirar a peça do forno, ela trinca, racha. Temos que aprender a lidar com aquilo que está fora do nosso querer, do nosso controle".
 
De acordo com a psicóloga Helena Maria de Andrade Capelini, 74, tudo o que sai de dentro de nós e se transforma em um objeto é muito revelador, seja um desenho, uma escultura, um objeto qualquer que produzimos. "Na cerâmica, você tem três dimensões que representam vários aspectos individuais psicológicos. Aquilo que você quer representar naquele momento, a argila ajuda a tomar forma, a psiquê trabalha, você tem a materialização objetiva de coisas internas subjetivas".  

Quer aprender uma atividade manual e se livrar do estresse? Veja nossas indicações dos entrevistados para esta matéria:  

Mariagulha: Rua Garibaldi, 1592 Boulevard | (16) 3964-5614 
Senhora Essência: Rua Sete de Setembro, 450 | (16) 3023-2720 
Roberto Schumaker Ateliê de Cerâmica | 16 98184-2133 



Comentários

"O site não se responsabiliza pela opinião dos autores. Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do ACidade ON. Serão vetados os comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. ACidade ON poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios deste aviso."

Facebook

Mais do ACidade ON