Há 25 anos, no dia 11 de novembro de 2000, a CTA (Companhia de Trólebus de Araraquara) desativava as viagens com sua frota de ônibus elétricos e seus saudosos ‘chifrinhos’ – como os passageiros apelidavam as alavancas do veículo.
O transporte começou a operar na Morada do Sol nas vésperas da década de 1960, em 27 de dezembro de 1959.
Primeira motorista feminina da frota de trólebus, a aposentada Maria Júlia Correa, de 66 anos, relembra dos tempos mágicos do transporte em Araraquara.
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De cobradora à primeira motorista feminina da Frota
Em 1989, aos 30 anos, Maria viu uma oportunidade. Ela, que tinha paixão pelos veículos grandes, já havia dirigido caminhão e foi cobradora temporária da CTA, durante uma greve. Com a cara e a coragem, decidiu candidatar-se à vaga de motorista na companhia.
“Eu fiquei um mês trabalhando como cobradora, aí eu fui no RH (Recursos Humanos) e pedi para passar para motorista, que eu já dirigia caminhão, né? Aí, puseram um fiscal para estar treinando, treinando a gente, e no caso treinando, eu que fui eu que entrei primeira, né? E aí, eu passei para motorista e fiquei três anos, depois eu saí, voltei, fiquei mais dois e assim por diante.”

Pinheirinho, Santana, Cecap, Jardim Universal, Jardim Del Rei e Vale do Sol. Essas foram algumas das linhas nas quais trabalho, pilotando tanto ônibus elétricos quanto os transportes à diesel. As linhas de ônibus elétricos operavam em sua maioria nas regiões do Centro, Fonte e Vila Xavier.
Não foi fácil ser a primeira motorista feminina no início da carreira na CTA. “Parava às vezes no ponto, a pessoa falava ‘ah, motorista, mulher, eu vou esperar o próximo’. Mas tudo isso aí foi coisa passageira, depois veio o reconhecimento, que realmente a mulher é mais delicada na hora de frear e mais carinhosa”, conta.
Atenção redobrada: desafios na condução

Os desafios eram muitos, pois os veículos a diesel e elétricos possuem sistemas diferentes. Quando acabava a energia, por exemplo, a linha de trólebus, que era conectada aos fios de energia aéreos da via, ficava parada.
Errar o caminho gerava uma dor de cabeça gigante.
“Caso você errasse o caminho, o caminhão torre, tinha que ir até o local para poder colocar ele de novo na rede. É onde a população, às vezes, achava que isso era um estorvo, que estava, assim, que atrapalhava o fluxo. (…) Um caminhão, um carro, um ônibus a diesel, você faz um contorno aí em um quarteirão ou dois, você volta para o mesmo trajeto e o ônibus elétrico exigia mais atenção, a gente não podia estar errando, tinha que tomar o máximo do cuidado.”
As curvas também tinham quer ser realizadas com muito mais precisão para que as alavancas não soltassem da rede.
“Tinha que saber fazer essa manobra para não soltar a alavanca da rede. Mas, caso acontecesse, era só destravar o retentor, que era atrás do ônibus. A gente colocava na rede de novo. Alguns lugares na rede tinha um triângulo que, se a gente pisasse no acelerador ali, cortava energia do ônibus, aí quando a gente saía com o nosso carro de casa, do nosso uso, quando chegava nesses lugares a gente tirava o pé do acelerador também, era automático”, relembra.
Os impactos sofridos por um itinerário acabavam atrasando todas as outras linhas.
Fim dos trólebus
Com problemas econômicos, envelhecimento da frota e falta de subsídios e investimentos governamentais, as últimas linhas de trólebus da CTA foram desativadas nos anos 2000, pouco mais de um mês em que o transporte faria aniversário de 41 anos de operação em Araraquara.
Apesar de todos os desafios, para Maria Júlia, a febre dos trólebus marcaram tempos muito bons.
“Quando acabaram os ônibus elétricos, eu acho que a maioria da população ficou muito triste, porque era o cartão de visita de Araraquara. Quando eu vejo assim que alguma cidade tem ainda o ônibus elétrico, eu sinto muita saudade”, disse.

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