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AraraquaraCotidianoBancos que contam histórias: a memória ainda viva das praças de Araraquara; VEJA FOTOS

Bancos que contam histórias: a memória ainda viva das praças de Araraquara; VEJA FOTOS

Neste Especial de Aniversário, o acidade on conta a história dos nomes eternizados nos bancos das praças mais antigas da cidade

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ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO – Na segunda metade do século passado, os irmãos Janusckiewicz anunciavam abelhas, mel e cera em um comércio na Avenida Portugal, no Centro de Araraquara. No mesmo período, Antônio Marques Lopes comercializava, na Casa Brasil, ferragens, louças e tintas. Não muito longe dali, no Largo do Carmo, era possível encontrar gazolina, ainda escrita com a letra “z”, óleo e lubrificação no Posto Nº 1. (Veja galeria de fotos abaixo)

Nomes de empresas, de pequenos comércios e armazéns, e de famílias que estão eternizados nos bancos das praças mais antigas da cidade. Retratos de um período em que não havia internet e em que o telefone ainda começava a despontar — eram apenas quatro dígitos.

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O empresário José Luiz Alves Pinto, de 72 anos, se emociona ao lembrar da trajetória que começou com o seu avô e que hoje está na quarta geração. De armazém a loja especializada em artigos de festa, o negócio da família, localizado na Vila Xavier, superou décadas de existência.

José Luiz tinha apenas seis anos quando o avô morreu, mas sabe que ele foi o precursor de tudo. História que está marcada em dois bancos da Praça José de Abreu Izique: um em memória do avô, Andrelino A. Pinto, o Nenê, e outro do Empório Popular de Andrelino A. P. Filho, fundado pelo pai.

“Isso eu não vou esquecer nunca. Eu me lembro de que era eu quem vinha lavar isso aqui. Meu pai, meu irmão e eu trabalhávamos todo domingo. Tem gente que não dá valor, mas eu dou, e muito“, diz.

Negócio da família do empresário José Luiz Alves Pinto está na quarta geração (Foto: Milton Filho/ acidade on)
Negócio da família do empresário José Luiz Alves Pinto está na quarta geração (Foto: Milton Filho/ acidade on)

Na Rua 9 de Julho, a Ótica Araraquara aviava qualquer receita ótica. No mesmo endereço, havia a Joalheria Blundi e, na Rua Padre Duarte, a Fábrica de Barbantes Bandeirantes. Ainda no Centro, ficava a Serralheria Humaitá, de João Ferrarezi.

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Outros eram ainda mais famosos, como as Meias Lupo S.A. e as fábricas de refresco artificial Cotuba e Ciomino.

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Walter Parelli Junior, 72, não esconde a surpresa ao saber que o banco da Auto Eletro São Bento, fundada há mais de 80 anos pelo pai, continua intacto, assim como a sua dedicação ao ofício. Com exceção do nome da empresa, que mudou para Centro Automotivo JR. com a segunda geração, o estabelecimento está no mesmo lugar: Avenida 7 de Setembro, 879, no Carmo.

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“Hoje em dia isso não é mais propaganda; agora é só celular, internet. Isso ficou para trás, mas ainda tem pessoas que vão lá e veem o banco […] A gente sempre trabalhou direito, não tem como fechar. Já temos os clientes antigos, então permanecemos, e eu gosto do que faço“, afirma.

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Banco da Auto Eletro São Bento, oferecido por Walter Parelli, na Praça José de Abreu Izique, na Vila Xavier (Foto: Milton Filho/ acidade on)

Segundo Gabriel Arroyo, professor do Departamento de Ciências Humanas e Sociais da Universidade de Araraquara, a publicidade em bancos de praça se desenvolveu junto com a própria ideia de mobiliário urbano e se tornou uma maneira de exibir anúncios de forma contínua em locais estratégicos, aproveitando a visibilidade e o alto fluxo de pedestres.

“Naquele tempo, a funcionalidade desse tipo de anúncio era altíssima, porque a publicidade não era pensada como uma complexa campanha de branding ou performance, mas como uma extensão da presença física do negócio. […] Isso gerava uma percepção de valor e de pertencimento à comunidade. […] Eles são um testemunho de uma época em que a publicidade era mais pessoal e conectada ao dia a dia da população“, explica.

O professor acrescenta que os bancos eram patrocinados por comerciantes locais que, em troca da publicidade, financiavam a sua instalação e manutenção nas praças. “O anúncio não era pensado como uma grande campanha de marketing, mas como uma forma de divulgar um negócio próximo, geralmente de pequenos comércios, como lojas, restaurantes, farmácias e escritórios de advocacia, que desejavam atingir a clientela da própria região“, completa.

A aposentada Maria Inês Delfino, 72, mora há 45 anos em frente à Praça Popular, localizada na Avenida Princesa Isabel, na Vila Xavier. Com carinho, ela se recorda do banco do Armazém São Joaquim e de um momento que presenciou com seus vizinhos.

“Infelizmente, ninguém lembra da história. Este banco tem muita história para contar: uma vez tinha uma família inteira sentada ali, os quatro. Foi tão bonito”, conta.

Para ela, os bancos são sinônimo de tradição e história, e deveriam ser melhor preservados. “Antigamente era muito mais movimentado, bonito o jardim, as crianças brincando, pulando, famílias inteiras e, de repente, desaparece tudo, vai se perdendo a tradição“, lamenta a moradora.

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Banco da Alfaiataria Beloti e outros na Praça da Igreja Nossa Senhora do Carmo, no Carmo (Foto: Milton Filho/ acidade on)

Segundo a historiadora Teresa Telarolli, os bancos se popularizaram entre as décadas de 1950 e meados de 1970, fazem um recorte da história local e carregam “uma marca, um desejo de permanência”.

“Ainda que boa parte dos bancos originais tenham desaparecido – seja por falta de conservação, de vandalismo ou furto – aqueles que sobreviveram ao tempo são espécimes importantes na preservação da história da cidade. Através deles, é possível recuperar desde aspectos da economia local, até outras características como a grafia das palavras, a evolução dos números de telefones, muitos com quatro dígitos, o ordenamento urbano, etc”, explica.

De acordo com a especialista, além das questões mais palpáveis, os bancos também traduzem a construção da memória dos cidadãos. “O banco como local de encontro de amigos ou como abrigo para os casais que ali se encontravam e começavam a escrever suas histórias, das famílias que tinham na praça seu espaço de lazer com as crianças correndo em torno das fontes… A preservação desses bancos é ação essencial para a prevalência da história de Araraquara, dentro de um conjunto de cuidados que englobem também outros acervos e bens de relevância histórica e cultural da cidade”, conclui.

Apesar do simbolismo, Arroyo reconhece que a mudança de comportamento da sociedade faz com que esse tipo de comunicação seja improvável nos dias de hoje. “No passado, a publicidade operava sob o modelo de ‘exposição e repetição’. Você colocava sua mensagem em um lugar de visibilidade e esperava que o consumidor a visse repetidamente até fixá-la na memória. Hoje, vivemos na economia da atenção, em que a atenção do consumidor é o bem mais valioso e mais escasso“, justifica.

“As pessoas passam menos tempo ‘ociosas’ em praças, e sua atenção está quase sempre voltada para seus celulares. O tempo de exposição a um anúncio estático é muito menor do que o necessário para causar um impacto significativo“, finaliza.

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Milton Filho
Milton Filho
Milton Filho é repórter da editoria de cidades do portal acidade on. Formado pela Universidade de Araraquara tem passagens pela CBN Araraquara, TV Clube Band e Tribuna Impressa. Acumula há quase 10 anos experiência com internet, rádio e TV.

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