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cotidiano

Quatro amigas mudaram a realidade de um assentamento fazendo pães

Elas se uniram em uma associação e montaram uma padaria referência em quitutes caseiros

| ACidadeON/Araraquara

 
A palavra empreendedorismo sempre esteve no dicionário, mas nos últimos anos ganhou destaque, principalmente após a abertura econômica da década de 90. Toda mulher é empreendedora por natureza, mas a busca por uma vida melhor, por uma liberdade financeira ou ainda a necessidade de sustentar a família transformou mulheres que não entendiam nada de contabilidade e gerenciamento de negócios, em referências em determinado setor.

O que tem em comum um grupo de camponesas que se uniram em prol de um assentamento e uma professora que se tornou dona de boutique? Ambas agarram oportunidades e conquistaram espaços em uma sociedade onde a mulher ainda luta duas vezes mais que o homem.

Sair de sua terra Natal em busca de uma vida melhor. Foi assim que as amigas e sócias da Associação das Mulheres Assentadas (AMA) chegaram, no final dos anos 90, no Assentamento Monte Alegre, em Araraquara.

As 'tias da padoka' como são conhecidas mudaram a realidade de um assentamento rural em Araraquara (Fotos: Amanda Rocha)

Maria José Severino dos Santos, de 60 anos; Elizete Cordeiro dos Santos, 58; Jisele Dias de Souza, 53, e Edneia Salustino, 36, tinham a vontade e disponibilidade de lidar com a terra. Mas a terra foi substituída pela farinha. E essa paixão pela culinária as uniu. Em um assentamento rural, onde na época, as oportunidades de renda estavam ligadas apenas ao comércio de verduras e animais, elas começaram a fazer um curso de panificação com o objetivo de complementar os rendimentos da família.

"Sempre tivemos uma vida sofrida. No campo as coisas são muito difíceis, mas sempre buscamos uma vida melhor. Isso é natural do ser humano, querer crescer e melhorar", diz Maria José.

No começo do ano 2000, ainda no curso de panificação e cheias de ideias na cabeça, as amigas e técnicos de associações rurais se uniram para pensar em um modelo de negócio que pudesse gerar lucros para as camponesas. "Se falava de tudo, até que eu virei e disse: porque não montamos uma padaria?", relembra Elizete.

A ideia foi aceita no mesmo instante, mas até o sonho virar realidade foram oito anos. "Para conseguirmos ajuda na construção da padaria precisaríamos nos organizar em uma associação e isso levou um tempo. Depois esperamos dinheiro para erguer a padaria e comprar os equipamentos", lembra Jisele.

Organizadas por meio da Associação das Mulheres Assentadas, elas conseguiram R$ 50 mil e montaram uma padaria, ao lado da escola do Assentamento Monte Alegre. "Quando começamos utilizávamos a cozinha da escola. Tudo foi muito sacrificante", recorda Elizete.
Padoka do Assentamento Monte Alegre

A padaria tem nome sugestivo. Batizada de "Delícias do Campo" está há 15 anos no mercado e hoje é conhecida como o lugar onde se comercializa um dos melhores pães caseiros de Araraquara. E porque não falar da microrregião.

Se o prédio fica distante elas contam um marketing peculiar. "Os ciclistas fazem trilhas rurais e nos descobriram. Aqui, viraram fregueses, fazem propaganda boca a boca e ainda mudaram o nome da padaria, que hoje é Padoka, com k de bike", conta Edneia.  

A AMA começou com 20 mulheres e 11 ainda integram a equipe. Destas, quatro estão à frente da padaria e tocam o negócio, que, segundo elas, mudou a realidade das mulheres do campo. "Éramos camponesas, vivíamos da terra. Hoje vivemos de fazer pão e mesmo sem querer nos tornamos empresárias", diz.

As tias da padoka - como carinhosamente são chamadas - aprenderam a fazer contabilidade, a comprar e a vender. "Entendíamos de roça e de fazer pão. Hoje, temos que saber administrar porque senão não conseguirmos levar o negócio para frente", diz Jisele.

Com uma linha de caseiros pães, bolos, patês, bolachas e outros quitutes elas servem lanches na padaria e também são convidadas para fazer cooffes breaks empresariais, além de eventos com feiras e exposições. Os produtos da Padoka também podem ser encontrados nas feiras rurais de Araraquara.

"Nossos clientes são basicamente aqueles que buscam produtos com sabor da roça, um café coado no coador de pano, um bolo de milho sem nenhum conservante. Aqui é tudo feito com produtos do assentamento. E melhor: todos os dias e bem fresquinho. Esse é o nosso diferencial", reforça Jisele.

Mais que um negócio, a Padoka mudou a vida da comunidade. "Sem a padaria teríamos que buscar um emprego fora, porque só da terra não dá para viver e ninguém que mora em um assentamento tem vontade de sair. Queremos ficar a aqui e prosperar a nossa comunidade", finaliza Edneia.

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