ACidadeON Araraquara

Araraquara
mín. 20ºC máx. 36ºC

cotidiano

Iniciativa pioneira de Araraquara é modelo de gestão e controle de vacinação

Sistema do Sesa é informatizado desde 1986 e tem informações de todos os habitantes da cidade

| ACidadeON/Araraquara

Sesa de Araraquara é pioneiro na informatização do sistema de vacinas
Iniciada em 1986, quando ainda nem havia muitos computadores no País, a informatização do cadastro de vacinação do Serviço Especial de Saúde de Araraquara (Sesa) um centro escola de saúde pública vinculado à Universidade de São Paulo (USP) é pioneiro.  

Batizado de "Sistema Juarez" em homenagem ao seu criador, o médico Edmundo Juarez, que foi diretor do Sesa entre 1984 e 1997 o cadastro informatizado do Sesa possui mais de 278,4 mil registros ativos de pessoas que se vacinaram em Araraquara e realiza um censo continuado do município, sendo abastecido com todos os dados de certidão de nascimento, certidão de óbito, de recém-nascidos nas maternidades, de crianças vacinadas em todas as salas de vacinas do município e dados colhidos em visitas domiciliares.  

Hoje o controle começa na maternidade e acompanha o morador de Araraquara por toda a vida. Tamanha precisão de dados permitiu uma cobertura de vacinação acima da média nacional e o declínio das doenças imunopreveníveis em Araraquara. Atualmente, o município tem uma cobertura de 99,2% para BCG e 99,2% para hepatite, por exemplo.  

O funcionário público Ricardo Francisco de Paula se beneficiou desse controle todo. Quando seus pais idosos perderam as carteirinhas de vacinação na mudança de uma chácara para a cidade, ele conseguiu resgatar com tranquilidade os dados no posto de vacinação.  

"Hoje eles têm 82 anos e já perderam a carteirinha várias vezes, mas isso nunca foi problema. Acho importante ter esse mecanismo. Eu acompanho meus pais há vários anos por causa da idade deles, mas tem filhos que não acompanham e pessoas de idade não lembram que vacinas tomaram", afirma.
Sistema Juarez  

O sistema do Sesa surgiu por iniciativa do médico Edmundo Juarez. "Ele acreditava na atividade de vacinação como uma ação de saúde pública e começou a pensar em algo que garantisse uma alta cobertura de vacinação", conta o atual diretor do Sesa, dr. Walter Manso Figueiredo.  

Descrito como um entusiasta, o dr. Juarez foi um autodidata na informática. Comprou um computador XT na Alemanha, estudou e conseguiu montar o primeiro programa de controle de vacina.  

O médico iniciou o sistema com o sonho que o Brasil tivesse um cadastro unificado de vacinas. "Como ele tinha várias passagens pelo Ministério da Saúde, ele via que a grande dificuldade de quem está na ponta é você ficar procurando em fichas, em separar quem é faltoso, então ele buscou alguma coisa para ajudar, para dar agilidade e para diminuir o número de faltosos e aumentar a cobertura", conta a chefe do programa de vacinas do Sesa, Ângela Aparecida da Costa.  

A enfermeira acompanhou todo o desenvolvimento do Sistema Juarez. No início, o trabalho foi árduo. A digitação de todas as fichas, de todos os postos de saúde de Araraquara, foi feita manualmente por algumas poucas pessoas que sabiam usar o computador.  

"Para você ter uma ideia de como era lento, ele [dr. Juarez] colocava o sistema para rodar o número de faltosos [pessoas que não tinham tomado a vacina] e demorava três dias para sair toda lista", lembraÂngela.
"A ideia era separar por cada unidade do município a relação de faltosos, aí eles iam atrás e ia subindo a cobertura, e é assim mesmo, com vacinação é assim", completa.

Informatização
Atualmente, a vacinação é apenas um dos componentes do sistema de informação que engloba ainda a avaliação de vigilância epidemiológica de Araraquara, atividade laboratorial e até distribuição de medicamentos feitas pelo Sesa.  

O melhoramento do sistema é contínuo. Como é administrado pelos profissionais de saúde que dele utilizam, vai sendo adaptado de acordo com as necessidades e alterado com agilidade de acordo com as mudanças no calendário de vacinação do Ministério da Saúde.  

O sistema foi patenteado pela USP e disponibilizado gratuitamente em 2012, mas como seria necessário providenciar o suporte, ninguém se interessou por arcar com os custos.  

Também foi oferecido para o Ministério da Saúde que destacou uma equipe do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (SUS) (DATASUS) que tentou o desenvolvimento de um modelo nacional, mas esbarrou na falta de infraestrutura dos postos de saúde do país.  

"Não tinha computador, não tinha conhecimento, havia déficit de recursos humanos, era difícil. Aí, no início o pessoal do DATASUS vinha aqui para dar uma aprimorada e eles ficavam loucos porque em muitas unidades não tinha nem ficha. Se a pessoa perdia a carteira de vacinação não tinha controle", diz Ângela.  

Desde 2012, o governo estimula a implementação de um novo sistema digital de vacinas no país: o Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunização (SI-PNI).  

Fator humano
A informatização permite que o controle de vacinação seja nominal, o que é útil em uma campanha de vacinação, por exemplo, porque além de saber quantas pessoas foram vacinadas (o que cumpre as exigências da meta), é possível saber quem foi vacinado e quem deve ser procurado para se regularizar.  

Outro benefício é que em uma situação de evento adverso [como efeito colateral, por exemplo] é possível identificar rapidamente lote, validade e dosagem da vacina, bem como identificar outras pessoas que tomaram aquele lote para ver se houve reações semelhantes.  

O sistema do Sesa também realiza o controle de vacinação das famílias utilizando o nome da mãe. Assim, quando uma criança é vacinada, o programa levanta os dados de todas as pessoas da mesma família e atualiza a carteira de vacinação quando for necessário.  

Mesmo com todas as vantagens e agilidade, a informatização não é suficiente para melhorar a cobertura de um município. Boa parte da eficiência de um sistema de vacinação está na busca dos faltosos, o que não é possível ser feito pelo computador.  

"Precisa de pessoas, trabalhadores que isso todo mundo sente falta porque está diminuindo que busquem os faltosos", afirma Ângela.  

Em Araraquara, a dedicação dos funcionários do Sesa contribuiu para que o cadastro seja tão completo. Já houve época em que as enfermeiras percorriam a área rural aos fins de semana avisando as pessoas sobre a vacinação.   

Hoje, isso não é necessário, o trabalho é feito por telefone, mas mesmo assim não é fácil.
"Há casos em que a gente não encontra ninguém em casa, aí avisa a vizinha. Outros casos de família que chega na cidade e não tem cadastro em nenhum lugar, aí a gente liga e pede foto da carteirinha para colocar no sistema, coisas assim", conta a enfermeira Marta Inenani.  

Unificação
O sistema de saúde de Araraquara está todo unificado, inclusive a rede privada. Isso permite que a situação de um morador possa ser consultada de qualquer posto de saúde da cidade. Se o sistema ganhasse escala nacional permitiria a qualquer brasileiro chegar a qualquer localidade e ter sua ficha de vacinação disponível.  

Atualmente, apenas 65% das salas de vacinação do país estão equipadas com o Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunização (SI-PNI). No restante, o processo está em implementação. Mesmo assim, segundo os profissionais, o sistema ainda precisa de ajustes pois tem alguns problemas, entre eles a lentidão, que é incompatível com a rotina de uma sala de vacinação.  

Para os profissionais do Sesa, que há 30 anos já trabalham com o sistema informatizado, o Brasil demorou muito a tomar uma atitude e a saúde só tem a ganhar com a informatização do programa de vacinação.  

"É preciso vontade política. O programa de vacinação mostra, desde a sua criação em 1973 pelo Ministério da Saúde, que tem um impacto brutal sobre as doenças. É efetivo. É preciso disponibilizar isso num mundo que está totalmente informatizado, mas tem que funcionar, funcionar para valer, não pode fazer um sistema que não atende o que é necessário", afirma Ângela. (Com informações do G1/Araraquara)