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Marcola virou 'chefão do PCC' após banho de sangue e delação de armas em Araraquara

Livro 'Laços de Sangue' relembra essa passagem; investigação atual mostra um novo comando temporário da facção

| ACidadeON/Araraquara

 
Que Araraquara e a região conhecida como '16' (em alusão ao DDD da telefonia) é um berço importante do crime organizado brasileiro ninguém questiona. Foram inúmeros flagrantes, prisões, mortes, ordens dadas, motins e investigações ao longo dos últimos anos. Muitas dessas ações tiveram o mesmo palco: a Penitenciária local que recebeu no início dos anos 2000 as principais lideranças da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) que sempre alternaram pelas casas penais paulistas. E uma disputa interna com atividade em Araraquara pode ter decidido o futuro da quadrilha mais temida do País. O tema volta a ser assunto com a notícia de que a facção tem novos comandantes, mesmo que temporários.

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A informação está no livro Laços de Sangue, da editora Matrix, lançado no ano passado e escrito pelo procurador de Justiça do Ministério Público, Márcio Sérgio Christino, um dos principais investigadores sobre o crime organizado do Brasil, e o jornalista e escritor Claudio Tognolli. Uma rixa interna dentro do PCC com decisões tomadas a partir de Araraquara, segundo os autores, beneficiaram Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, que "se tornava finalmente o único líder do PCC". A disputa que os autores descrevem aconteceu em 2005, quando Marcola cumpria pena na Penitenciária de Araraquara.

O ex-assaltante de bancos já tinha passado pela unidade de Araraquara outras vezes. Na década de 90, foi dentro do complexo de Araraquara que se casou com a advogada Ana Maria Olivatto. O casamento acabou em 1997, mas ela continuou atuando como defensora dos presos, muitos deles integrantes do PCC. Ana acabou morta em 23 de outubro de 2002, depois de uma suposta armação de outro líder, César Augusto Roriz da Silva, o Cesinha. Neste período, Marcola estava em Araraquara e chegou a decretar luto no sistema carcerário.

Com a exclusão de Cesinha e com outro líder negociando com a polícia, Marcola disputava o comando com Sandro Henrique da Silva Santos, o Gulu, até então vice-líder e um dos criminosos mais temidos na Baixada Santista. Mas, eles começaram a se estranhar. Gulu se juntou ao PCC logo no início e era da primeira leva a se agregar depois dos Fundadores, assim como Marcola. De acordo com o livro, Marcola estava mudando as regras no sistema estrutural da quadrilha, minando o controle de Gulu, chefe das bocas no litoral paulista.

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Em uma dessas discussões, Marcola teria suspendido Gulu por 30 dias. Ou seja, neste intervalo ninguém mais iria obedecer as suas ordens. Paralelo a isso, invadiram a casa da família de Gulu e furtaram duas bicicletas. O ato criminoso foi uma afronta a um dos bandidos mais temidos do Estado. De acordo com o livro, Gulu conhecia bem a maneira de Marcola agir e resolveu se antecipar. Fez o que o chefe já tinha feito com outras lideranças: avisou a Secretaria da Administração Penitenciária sobre um plano de recebimento de armas. 


Armas apreendidas na Penitenciária de Araraquara, em 2005; objetivo era uma fuga em massa (Arquivo/TribunaImpressa)
Na época, Marcola e outra liderança da facção, Júlio César Guedes de Morais, o Julinho Carambola, cumpriam pena na Penitenciária de Araraquara. Ele estava por aqui desde 17 de abril de 2002, quando veio transferido da Penitenciária de Segurança Máxima de Charqueadas (RS), depois de ter passado por presídios de Brasília, São Paulo e Rio Grande do Sul. Na grande ofensiva do Estado contra a facção ele chegou a ser transferido, em 23 de maio de 2002, mas retornou à unidade dias depois ficando até 21 de novembro do mesmo ano.

Marcola rodou alguns presídios do Estado e vinha mantendo sua liderança, às vezes, compartilhada. No dia 1º de julho de 2004, ele e Julinho Carambola voltaram para Araraquara depois de cumprirem pena no isolamento de Presidente Bernardes. Na época, chegaram no avião da Polícia Militar sob forte escola policial, amarrados com correntes e com os rostos encobertos por capuzes. Ficou por um período até um plano ser denunciado.

Era abril de 2005. Depois de uma informação passada à inteligência da Secretaria da Administração Penitenciária quatro pistolas semiautomáticas: calibre 45, 380 e duas calibre 765, todas carregadas, foram encontradas escondidas entre os materiais da marcenaria que cuidava da reforma de cadeiras escolares. Somente em março de 2007, descobriu que uma das armas destinadas a Marcola, uma pistola semiautomática, integrava um pacote de 50 furtadas do Fórum de Mauá, no chamado ABC paulista. Um juiz chegou a ser investigado, mas nada foi provado e, em 2009, o processo acabou arquivado.

O contra-ataque do Estado foi determinar a transferência de Marcola e Julinho Carambola, de Araraquara, para o isolamento no presídio de Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) em Presidente Bernardes. Gulu que pensava ter se dado bem, levou um revés. Dois dias depois dessas transferências, vazou a notícia de que Gulu teria entregado o plano de Marcola e companhia, por isso, em 28 de abril de 2005, começava uma guerra interna seguida de um banho de sangue.

Na Penitenciária 2 de Mirandópolis, Gulu, foi estrangulado com fios usados na fabricação de bolas. Um comparsa dele também foi assassinado. Simultaneamente, na Penitenciária de Casa Branca, foi morto Carlos Alexandre dos Santos, o Macalé. Já na prisão de Iaras a vítima foi Sérgio Luiz Fidélis, outro aliado de Gulu em atos criminosos. Mas as mortes não ficaram restritas apenas às prisões.  

Armas apreendidas na Penitenciária de Araraquara, em 2005; objetivo era uma fuga em massa (Arquivo/TribunaImpressa)
Momentos depois da morte de Gulu, três homens em um Corsa mataram a tiros, na Vila São Jorge, em São Vicente, Marco Aurélio da Silva Santos, 30, o Cabeça, irmão do ex-número 2 do PCC. Marco Aurélio, irmão de Gulu, foi executado na Baixada Santista. A mãe do então vice do PCC fugiu e escapou da morte. Palco importante dessa guerra, a Penitenciária de Araraquara, que foi o palco do start dessa guerra, não passou em branco.

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Três presos, Carlos Alexandre dos Santos, o Macalé, além de Marcelo Amorim Cardoso, 33, e Alex Costa Matiussi, 25, foram mortos a facadas no extinto pavilhão B. Os presidiários Alexandre Rodrigo de Oliveira, 29, e Rogério Gonçalves de Oliveira, 30, se apresentaram à direção da cadeia como os assassinos. As vítimas foram acusadas de transmitirem a informação sobre as armas que levaram Marcola ao isolamento.

De acordo com os autores do livro Laços de Sangue, essa guerra gerada a partir de Araraquara fez mudar o controle e a organização interna do PCC, que eles classificam como capo di tutti capi (do italiano, chefe de todos os chefes), que iria transformar o PCC em um cartel. De fato, ao longo dos últimos anos, principalmente depois das megarrebeliões de 2006, a facção deixou de lado as ações mirabolantes para focar no comércio de drogas. O que, segundo os autores, transforma o Brasil em quase um México quando o assunto é o narcotráfico.

"O PCC não faz justiça, faz justiçamento, atende apenas aos próprios interesses e não oferece nada mais do que mortes aberrantes. Não fornece remédios nem alimentos. Compra a vida, porque, na desobediência ou no desagrado, do Partido, o suposto beneficiário é punido com a morte ou a mutilação", diz Márcio Sérgio Christino, que acrecenta. "Resta ao Estado agir com firmeza maior do que a feita até aqui".  
 


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