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Mortes escancaram vulnerabilidade social do residencial dos Oitis

Condomínio popular da Zona Sul está na lista dos mais problemáticos do município com mais de 1,5 mil pessoas

| ACidadeON/Araraquara

Vulnerabilidade social dos Oitis em Araraquara é escancarada por mortes recentes 
 
Em menos de 10 dias, dois episódios de violência que resultaram em assassinatos escancararam a vulnerabilidade social do residencial dos Otis, no Jardim Iguatemi, em Araraquara. O conjunto habitacional vertical da Zona Sul foi inaugurado em 2011, em uma das primeiras levas do programa Minha Casa Minha Vida. Lá são 256 apartamentos, onde moram cerca de 1,5 mil pessoas consideradas de baixa renda. O local está na lista dos seis territórios de maior vulnerabilidade social do município.  

Primeiro, uma briga entre vizinhos resultou na morte do jovem Felipe Nascimento Cardoso dos Santos, de 21 anos, no último dia 28. Segundo informações do boletim de ocorrência, a irmã da vítima teve um desentendimento com a mulher do atirador. A família dela foi ao local e conseguiu apaziguar a discussão. Mas o autor do crime, ainda exaltado, sacou uma arma e atirou contra o jovem que morreu na Unidade de Pronto Atendimento (UPA).  

No domingo (05) mais um caso que chocou Araraquara. A Polícia Militar foi acionada para apartar uma briga de casal. Chegando ao local, o marido, Wiliam Ferreira, de 31 anos, ainda alterado, tentou tirar a arma do policial, que para se defender atirou. Um dos tiros matou o rapaz.  
 
 
Panorama
Desde quando foi inaugurado, as famílias que vivem no residencial dos Oitis convivem diariamente com problemas de toda a ordem, sendo as questões relativas à segurança as mais graves. No local, onde o tráfico de drogas é comum, segundo relato de moradores, policiais são rotineiramente hostilizados. Pelo fato de ser um condomínio vertical, que funciona com regras próprias e barreiras como a lei do silêncio, as ações do Estado são mais difíceis de penetrar.  

Marcio Servino, Conselheiro Tutelar de Araraquara, que faz atendimentos no local tratando maus tratos contra crianças, uso de drogas por menores e evasão escolar, afirma que o Oitis é uma bomba relógio. "As duas mortes recentes foram o fundo do poço, mas outras ocorrências podem explodir se a sociedade não se unir para melhorar a realidade do local", diz ele.  

Servino acrescenta que boa parte das pessoas que moram no local são trabalhadoras, são pais que lutam para criar seus filhos. "Porém, o tráfico de drogas corrompe as famílias e torna tudo mais difícil de ser feito", diz ele.  
 
 
Vulnerabilidade social
Jacqueline Pereira Barbosa, secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, diz que a situação no condomínio ganhou destaque agora, por conta das mortes, mas sempre foi muito complicada. Segundo levantamento feito pela secretaria, o Iguatemi, bairro onde está localizado o residencial está na lista dos seis de maior vulnerabilidade social de Araraquara, junto com as regiões do Cruzeiro do Sul, São Rafael, Hortênsias, Parque São Paulo e Vale Verde.  

"Os problemas registrados lá são inúmeros, desde violência, drogas, evasão escolar, entre outros", reforça ela.
Para tentar minimizar a situação, a Prefeitura tem mantido ações periódicas no local, que começaram em fevereiro deste ano, quando os alambrados que cercavam os blocos de apartamentos foram arrancados. Desde então, as secretarias de Saúde, Educação, Obras e Assistência Social estão trabalhando em conjunto para melhorar a vida dos moradores. "O trabalho está acontecendo", diz Jacqueline.  

Por parte da Assistência e Desenvolvimento Social, ela diz que uma vez por semana, a equipe do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) vai ao residencial prestar atendimentos no local. Além disso há grupos de convivência para jovens, mulheres e adultos, ações que tentam aproximar o atendimento da realidade, falar sobre a violência contra mulher e uso de drogas, por exemplo. "Temos que lembrar que lá é um condomínio vertical, com regras próprias e que muitas vezes os trabalhos de apoio sofrem resistência, seja por medo ou por outros motivos, mas seguimos tentando dialogar com as famílias sobre várias temáticas", relata.  

Atualmente das cerca de 250 famílias que vivem no Oitis, 107 recebem o benefício do Bolsa Família. Parte recebe ainda cesta de hortifrútis, cesta básica e leite. "São programas que tentam minimizar as desigualdades", reforça.  

Queremos paz
Um pedreiro de 47 anos, que preferiu não se identificar, mora no Oitis desde quando o local foi lançado. Ele tem seis filhos e diz que a convivência no local está cada dia mais complicada. "Tenho medo de criar meus filhos aqui. É muita droga, muito lixo, não temos como sair na rua e vivo pensando em me mudar, mas não tenho como pagar um aluguel em outro bairro. Meu sonho é ver este lugar se reerguer e viver aqui em paz", diz ele.