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Acessibilidade no Centro de Araraquara ainda é desafio para pessoas com deficiência

Durante pequeno percurso, equipe constatou ao menos cinco dificuldades para cadeirantes no 'quadrado Central'

| ACidadeON/Araraquara



Rampas íngremes, desrespeito às leis de trânsito, falta de acesso em calçadas, elevador inoperante em ônibus e espaços públicos sem acessibilidade são ainda alguns desafios enfrentados diariamente por pessoas com deficiência no Centro de Araraquara.  

Às vésperas do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência - dia 21 -, fomos conferir como é o dia-a-dia de quem possui dificuldades para se locomover. É o caso da baiana Barbara Prado, que reside em Araraquara há doze anos e possui paralisia infantil.  

Apesar de conviver desde os três meses de vida com a deficiência, há um ano e seis meses Barbara recebeu sua cadeira motorizada da Prefeitura e pôde conhecer melhor a Morada do Sol.  

Mas, ao percorrer um pequeno trecho pelo quadrado central, entre a Praça Santa Cruz e a Prefeitura, foi possível ver que apesar de conseguir ir e vir para muitos lugares, Barbara ainda enfrenta dificuldades e até riscos para poder chegar aos destinos.  

O primeiro ponto crítico foi ao sair de um hipermercado, onde na esquina da Avenida Feijó as rampas são íngremes, dificultando o acesso da cadeira de rodas. Com medo de tombar, Barbara se aventura entre os carros até chegar a Rua Nove de Julho, onde geralmente aguarda o transporte coletivo, em frente ao Shopping.  

"A maior dificuldade é justamente as rampas que dificultam o percurso. É onde o cadeirante acaba arriscando a própria vida andando pelas ruas. Um cadeirante motorizado é como uma bicicleta, então tem que ter o acesso. Mas é complicado, porque tem muitas pessoas que acabam desrespeitando a gente", explica.    

Cadeirante Bárbara Prado percorreu com reportagem ruas do centro da cidade (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)

A mesma dificuldade pôde ser vista em outros pontos do Centro, como por exemplo, na esquina da Avenida Portugal com a Rua Nove de Julho. Neste trecho, um degrau no asfalto trava a cadeira de rodas, impossibilitando seguir o trajeto e exigindo apoio de outra pessoa.  

"Tem rampas aqui no Centro que não tem acesso e não dá para o cadeirante subir, tem sempre que ter ajuda de alguém. E isso que nos deixa triste, porque gostamos de ter essa total liberdade, de poder andar sozinho e isso faz bem pra gente", afirma.   

Cadeirante Bárbara Prado percorreu com reportagem ruas do centro da cidade (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)

No mesmo quarteirão, porém, mais pra cima, o acesso de uma das rampas foi impedido por um veículo estacionado de forma irregular. Ao notar que Barbara ia usar a rampa, o condutor chegou para retirá-lo, porém, já havia desrespeitado as leis de trânsito e causado o transtorno à cadeirante.  

"As pessoas precisam ter consciência de que isso da deficiência pode acontecer com qualquer um, até com ele mesmo que acabou estacionando no lugar errado, na vaga do deficiente. Lá na frente ele pode precisar deste acesso e não ter", desabafa.

Do outro lado, outro desafio. A rampa começa na esquina, porém, na metade do quarteirão, o acesso ao estacionamento de um antigo clube na Avenida Portugal interrompe o caminho pela calçada, sem contar o ponto de táxi e as escadas.  

Para atravessar da Prefeitura até a Câmara encontramos o ponto mais crítico. A altura da rampa na Avenida Duque de Caxias fez com que a cadeira tombasse, precisando que outras pessoas pudessem auxiliar para que Barbara não caísse.   

Cadeirante Bárbara Prado (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)

Na Câmara nova surpresa. As placas indicam acesso por um portão lateral, porém, ao chegar lá, o interfone usado para pedir a abertura não é acessível, uma vez que Barbara não alcança o botão. A rampa de acesso também está alta, possibilitando a entrada e saída somente por um dos lados.  

O local mais crítico no Centro é a Casa da Cultura. Espaço para diferentes atividades culturais e construído há muito tempo, o local não oferece acesso a pessoas com deficiência. Uma funcionária informou ao ACidade ON que poderia abrir um portão para ter acesso ao local, porém, havia um degrau no mesmo, o que demandaria auxílio de outra pessoa.    


Transporte coletivo
Outro ponto crítico na análise de Barbara é o transporte coletivo. Segundo ela, nem sempre os elevadores dos ônibus estão funcionando o que obriga a aguardar outros veículos para conseguir se locomover. Durante a reportagem paramos um coletivo, porém, o equipamento estava em perfeito funcionamento e foi possível o embarque.  

"Eles funcionam, mas acontece sempre de quebrar ou a rampa não funcionar direito e é onde eu reclamo com eles. Porque, na verdade, tem que sair na garagem com tudo funcionando. Eles têm que fazer uma vistoria pra ver se a rampa está funcionando normal antes de tirar o ônibus da garagem. É um direito nosso", afirma.   

Cadeirante Bárbara Prado percorreu com reportagem ruas do centro da cidade (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)

Reflexão
As dificuldades que se apresentam para Barbara no dia-a-dia pelas ruas não a impedem de ir e vir. Ao ser questionada sobre qual mensagem deixaria neste dia de reflexão, ela aponta algumas dificuldades, mas ressalta a importância da prevenção.  

"Vejo que tem muitas mães que não estão vacinando seus filhos e o meu maior conselho é para que vacinem. O meu problema, a minha paralisia, foi justamente pela falta da vacina. A vida de deficiente é difícil, não é nada fácil, eu me locomovo, saio, vivo, mas eu sei que tem muitos que não fazem isso. Meu maior aviso é para que todas as mães vacinem seus filhos".  

Driblando diariamente os desafios, Barbara também é solidária e ajuda outras amigas a superar os problemas diários. "Mesmo com a minha dificuldade, eu sou uma pessoa feliz. Isso faz com que eu mostre para outras pessoas que não existe deficiência que atrapalhe a vida. Se você se ama, é feliz, nada disso atrapalha. É o que eu falo pra todo mundo: eu sou feliz, mesmo com minhas dificuldades", finaliza com sorriso no rosto.  

Fala, Câmara!
À reportagem, o setor de Comunicação da Câmara disse que foram feitos diferentes estudos, acordos com o Ministério Público e adequações que foram apontadas. Em relação a dificuldade com o interfone, o setor reconhece que ele está posicionado em um lugar alto, porém, afirma que há câmeras de segurança que possibilitam ao porteiro ver a pessoa e abrir o portão. Nos demais pontos do prédio, o setor ressalta que existe acesso aos diferentes pontos da Casa de Leis, bem como elevadores que dão acesso ao andar superior. A Comunicação da Câmara disse ainda que a acessibilidade é uma de suas preocupações e que, caso haja apontamento, não vê dificuldades em fazer adequações.   

Cadeirante Bárbara Prado percorreu com reportagem ruas do centro da cidade (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)

Fala, Prefeitura!
Questionada sobre as dificuldades acompanhadas pelo ACidade ON, a Prefeitura disse que vem trabalhando na solução dos problemas. Segundo a nota, somente em 2019 foram feitos cerca de 350 rebaixamentos de guias pela cidade visando melhorar a acessibilidade das pessoas com deficiência.

Confira a nota da Prefeitura na íntegra:  

A Coordenadoria de Mobilidade Urbana informa que somente neste ano de 2019 realizou cerca de 350 rebaixamentos de guias visando melhorar a acessibilidade das pessoas com deficiência. Além disso, foram instalados na cidade cerca de 30 lombofaixas, principalmente nas regiões escolares. Tal dispositivo melhora as condições de acessibilidade e conforto das pessoas com deficiência, pais com crianças em carrinho de bebê e idosos, uma vez que a travessia se dá um lado para o outro da via no mesmo nível da calçada. Esta solução tem sido utilizada com sucesso em vários países do mundo, com resultados importantes na redução dos atropelamentos.

Em relação ao transporte coletivo, a Controladoria do Transporte de Araraquara informa que todos os veículos da frota que atende o município possuem os padrões de acessibilidade previsto na legislação federal. É importante ressaltar que o consórcio que realiza o transporte público na cidade possui cinco veículos especiais para o transporte de pessoas com deficiência e um reserva para caso de necessidade. Através do programa "Porta a Porta" é oferecido o transporte especial e personalizado para essas pessoas, o veículo busca o munícipe na porta da sua casa e leva até o local desejado.

Vale ressaltar que ambos os setores estão abertos para ouvir as demandas da população e possuem um canal de ouvidoria que pode ser acessado presencialmente no Terminal Central de Integração ou através do 0800 778 9696.

A Secretaria de Desenvolvimento Urbano informa que todos os novos projetos de loteamento da cidade só são aprovados diante da apresentação de um projeto de acessibilidade para pessoas com deficiência.

Em relação a Casa da Cultura, a Secretaria da Cultura informa que há um projeto de recuperação e conservação do espaço que está sendo analisado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT). A revitalização da Casa da Cultura "Luís Antonio Martinez Corrêa" foi a obra vencedora da Plenária da Cidade do Orçamento Participativo de 2019 e está prevista para o orçamento municipal de 2020. Dentro dessa reforma está previsto a inclusão de elevador e demais adequações visando a acessibilidade para pessoas com deficiência.

Cabe ressaltar que o município conta com a Assessoria Especial Políticas Pessoas com Deficiência, órgão vinculado a Secretaria de Planejamento e Participação Popular e que conta com atendimento especial no paço municipal. O setor tem como atribuição assegurar e gerenciar o plena inclusão e acessibilidade das pessoas com deficiências no município de Araraquara através do atendimento e de orientações sobre os direitos da pessoa com deficiência como também através de encaminhamentos às pessoas com deficiências, em articulação com as demais políticas públicas. Espera-se contribuir para eliminação das diferentes formas de manifestação do preconceito contra essa população, uma vez que se busca a inclusão e inserção das pessoas com deficiência no ambiente escolar e no mundo do trabalho, na saúde, no transporte, cultura, esporte e lazer a fim de minimizar os déficits acumulados ao longo do tempo.

Além disso, a cidade conta com o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência COMDEF - uma instância permanente, paritária, consultiva e deliberativa, vinculado ao Gabinete do Prefeito, com a finalidade de assessorar o governo municipal, no sentido de que o exercício dos direitos civis e humanos das pessoas com deficiência. O Conselho conta com a participação da sociedade civil que atua junto ao poder público na promoção das políticas públicas do município na área.

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