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Amaral, um guerreiro em nome do samba

No dia Nacional do Samba conversamos com o percussionista araraquarense Amaral, na atividade há 40 anos

| ACidadeON/Araraquara

Amaral: 40 anos dedicado ao samba em Araraquara (Foto: Amanda Rocha)

Carlos Amaral é um apaixonado pelo samba. Nos anos 80, largou a profissão de metalúrgico para se dedicar ao ritmo que é uma das marcas mais fortes do Brasil mundo afora.  

Se começa a falar do grupo Fundo de Quintal não tem pra ninguém. Ele até brinca, dizendo que "pode gostar do Fundo de Quintal igual a mim, mais do que eu não". São várias as histórias ao longo desses 40 anos vivendo do samba em Araraquara.  

Na infância, ele já batucava com o irmão nas panelas da mãe. De família numerosa de 11 irmãos, desde pequeno teve que ajudar em casa. Engraxava sapato, vendia amendoim, olhava carro. O "dinheirinho" ele entregava para mãe, e um tanto pegava para alugar uns instrumentos na escola Anjo da Vila.  

"Comecei a batucar com uns 8, 9 anos. Desde pequeno gostava de música. Alugava os instrumentos na escola de samba Anjo da Vila e assim aprendi a valorizar. O mestre Moacir, da escola "Pra Frente Brasil" queria que eu saísse na ala dos passistas, mas eu sempre quis a bateria", lembra.  

Assim, em 1970, depois de perceberem o talento inato do menino Amaral, ele conseguiu o tamborim na escola de samba "Pra Frente Brasil" , que de letra, ainda se consagrou campeã naquele ano. Um bom modo de se começar. Mas a caminhada do "bamba" estava só no início.  

"Meus pais começaram a perceber que eu levava jeito, mas fui estudar e trabalhar. Fui metalúrgico até 1981. Saí na época da greve, fiquei desempregado e comecei a tocar samba. Vi que tinha jeito pra isso e até hoje não parei", conta.   

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Preso pelo samba
Amaral lembra um episódio marcante que fortaleceu ainda mais a sua vontade de tocar e viver do samba. Ele foi preso por tocar samba além do horário permitido.  

A década era de 80. Festa universitária lotada, pessoas empolgadas e o som não cessava mesmo com o aviso da polícia.
"Fui preso por causa do samba. Naquela época, nos anos 80 e poucos, a polícia baita muito nos sambistas, nos taxavam de maloqueiro. Me deu dor de vergonha e não por ter apanhado de cassetete. Isso me marcou e pensei: é isso mesmo o que tenho que fazer, introduzir o samba na cidade, que é uma profissão, uma arte", relembra.  

Nessa época , o percussionista tocava muito em festas de faculdade, e estava difícil conseguir trabalho. Mas tanto perrengue intensificou o foco e dedicação de Amaral. Assim, montou o grupo "Só Pagode" e a era dos clubes se iniciava: 22 de agosto, Araraquarense, Náutico, entre outros, eram agenda certa.   

Foram vários grupos de samba na trajetória do músico, como o Tempero da Terra, até o Magnatas do Samba, que fez grande sucesso na década de 90 com a música "Doce Mania", de composição do araraquarense Zezinho Cipó.  

Nos anos 90, Araraquara já era tida como a "capital do pagode". E Amaral um sambista respeitado e muito requisitado. 

"Entre 90 e 92 Araraquara foi considerada a capital do pagode, pela proporção da cidade, tinha mais de 20 grupos. Eu tinha a Caravana do Amaral, e um programa diário em uma rádio. Todas as rádios tocavam samba, os clubes valorizam muito, gravamos discos, e fizemos vários shows em várias capitais. Ficamos conhecidos, agradeço a Deus, sou muito feliz por isso", pontua.  

Sobre a diferença entre samba e pagode, ele explica que o samba é que é o ritmo. "Quando você pega um pandeiro, um cavaco e faz uma roda, isso é o pagode. É a festa da roda de samba", diz o percussionista.  

Profissinais do batuque
O percussionista vê hoje a profissionalização e o respeito do samba na cidade somado aos excelentes compositores da Morada do Sol. E frisa também que a facilidade de se conectar com um celular e pegar a letra, e o estilo de um determinado compositor otimiza muito o percurso. 

"Eu vejo samba hoje com muita alegria, porque hoje o samba se profissionalizou, a rapaziada toda estudando, na própria caminhada musical e artística. O próprio Carrapicho que começou com os Magnatas do Pagode( saudosa banda de Amaral)... temos o Júnior Barros, o Elói de Brito, são pessoas que estudaram, se profissionalizaram", enfatiza.  

Ele relembra que em sua época não tinham liberdade de chegar tocando e já ganhando em bares. Aliás, ele até pagava para tocar. E manda a letra para a moçada nova:
 

"Valorize o samba como profissão, você até começa no churrasquinho, mas estude, tá tudo na mão. Isso fortalece, te dará alegria, te fará feliz. Eu sou um percussionista e um guerreiro em nome do samba" , diz.



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