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Salgadeira chama atenção de moradores da Zona Norte

Arrimo de família, Cintia sustenta a casa com a venda de salgados na rua

| ACidadeON/Araraquara

Salgadeira chama atenção de moradores da Zona Norte (Foto: Gabriela Martins)
"Olha o salgado, R$ 1!". Quem ouve os gritos já sabe, tem salgado quentinho a espera dos moradores da região do Jardim Selmi Dei, Zona Norte de Araraquara. A dona dos gritos e de uma simpatia sem tamanho é a salgadeira Cintia Cristina Teixeira Laurindo, de 42 anos. 

Cintia é arrimo de família e cuida sozinha dos dois filhos de 11 e 12 anos de idade. Ela recebe pensão, mas o valor é baixo, ou seja, a maior parte das contas e o alimento que coloca na mesa para ela e seus filhos são pagos com a venda das coxinhas e bolinhas de queijo, produzidas e vendidas por ela.  

Todos os dias, Cintia acorda cedo, leva a filha para a escola e começa sua batalha. Ela frita de 100 a 50 salgados diariamente, coloca em uma caixa de isopor encapada com papel alumínio, depois em uma sacola, então em uma caixa térmica improvisada para manter, sempre para manter o salgado bem quentinho.   

Cintia  improvisa caixa para vender os salgados pelas ruas da Zona Norte (Foto: Gabriela Martins)
"Eu tinha uma caixa térmica, mas ela acabou quebrando e tive que improvisar. No momento não tenho condições de comprar uma  
nova", conta. 

Com as coxinhas já acomodadas, Cintia segue para as ruas do Jardim Selmi Dei, Valle Verde e outros bairros próximos e, só volta para casa quando todos os saldos forem vendidos.  

"Durante o dia vou acompanhada com um dos meus filhos e no período da noite levo os dois, para que não fiquem sozinhos em casa. Já teve dia de parar uma hora da manhã, pois sei que R$ 1 que deixo de ganhar pode fazer falta", ressalta. 

Mas o dia não termina com o fim das vendas. Quando chega em casa, a salgadeira vira a noite produzindo as coxinhas que serão fritas pela manhã. "Já teve dia que dormi às 3h e acordei às 6h, assim como já teve dia que simplesmente não dormi. Todos os dias tem uma nova batalha. Há três anos eu cheguei a me queimar com o óleo, que atingiu próximo dos meus olhos, mãos e colo. Já gritei tanto que cheguei ao final do dia sem voz e já passei por problemas como o de hoje, que meu gás acabou e tive que ir para a casa da minha cunhada para fritar os salgados. Já pensei em desistir, mas não posso parar. Acredito em Deus e que no final irei conseguir ter um espaço fixo para fazer e vender meus salgados", afirma.  

Salgadeira sustenta casa com a venda de salgados por R$ 1 (Foto: Gabriela Martins)
Cintia afirma que, ao se alimentar junto aos filhos, ela se sente uma fortaleza, pois sabe que tudo foi conquistado por meio de seu grito e de seu suor. "Eu agradeço ao Senhor a cada dia, pois é muito gratificante. E muitas pessoas conhecem a minha batalha e tem muita gente que não aceita o troco, falam que eu posso ficar. Às vezes eles compram só para não voltar para casa sem vender. Tudo isso é muito gratificante. Meu maior objetivo é um dia poder retribuir. Eles falam que eu passo uma fortaleza muito grande e que se espelham muito em mim. Eles falam que sou muito guerreira, batalhadora e quero vencer na vida. Eles então olham para mim e se fortalecem. As vezes estou pra baixo, devido as preocupações da vida. Mas eu saiu lá fora e volto fortalecida".  

Como tudo começou
Cintia conta que aprendeu a cozinhar muito cedo, com 8 anos já fazia arroz. Na adolescência aprendeu a fazer salgados para a família, mas nunca imaginou que isso se tornaria a minha profissão.   

 

"O tempo passou e as dificuldades vieram. Eu tive várias oportunidades de estudar e trabalhar em outros setores. Já trabalhei de tudo um pouco, fui manicure, autônoma e tive um pequeno comércio. Há oito anos as dificuldades chegaram e tive a ideia de voltar a fazer o salgado", conta. 

Para Cintia, esse foi um dom recebido por Deus e que, na hora da dificuldade, veio a vontade fazer e vender salgados. Porém, ela nunca imaginou que seus salgados fariam sucesso e que seu grito ficaria tão conhecido entre os moradores daquela região.  

"Arrisquei sair para a rua. No princípio eu sofri bastante, mas logo aprendi a lidar com as pessoas, com a comunidade. Andando pelas ruas eu vejo as dificuldades que as pessoas também enfrentam. Foi algo que Deus me deu, é o dom de fazer o salgado e estar saindo, tanto pelo meu ganho como para minha comunicação, pois hoje sou bem mais comunicativa, antes era mais reservada. As pessoas que degustam meus salgados gostam e pedem bis. Hoje esse é o principal sustento da minha casa", finaliza.

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