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As mil e uma histórias e fantasmas no Casarão do Bela Vista

Local foi tombado pelo patrimônio histórico, mas sua restauração está longe de sair do papel

| ACidadeON/Araraquara


Casarão do Assentamento Bela Vista, em Araraquara (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)
ON MEMÓRIA ESPECIAL  

A velha escadaria está destruída pelo tempo, mas, mesmo sem corrimão e com degraus quebrados, mantém a imponência de uma época onde nada escapava dos olhares do senhor do café.

A beleza e o encanto do pelo velho casarão do Bela Vista se mantém na arquitetura invejável e em seus detalhes, em cada porta e janela bem desenhada, mas escondidas por detrás da poeira e das décadas de abandono.

Construído na época do café e de seus barões, o local desperta a curiosidade daqueles que o visitam. Afinal, quantos sorrisos e lágrimas por ali rolaram? O que o velho coronel avistava do alto de sua sacada? Havia cantoria enquanto a roupa era lavada no tanque localizado nos fundos da casa? Quem relaxou antiga banheira, que mesmo aparentemente delicada, se mantem firme aos sinais do tempo? Aqui, realmente tinham escravos?  

Casarão do Bela Vista do Bela Vista foi construído por volta de 1890 (Foto: Reprodução)
"A frente do casarão permitia que o velho barão controlasse quem entrava e saia de suas terras e aí gera uma dúvida. Falamos do final do século XIX, 1880 1890, quando houve a abolição da escravatura, mas estamos no sertão de Aracoara. Há dúvidas se existiam escravos aqui. O casarão nos dá indícios, pois alguns arquitetos e historiadores afirmam que essa arquitetura se trata de um solaris, onde a senzala não ficava do lado de fora, mas ficava na parte debaixo do casarão. E aqui temos isso. A entrada do coronel tem uma porta alta e você entra ereto. A entrada localizada na lateral da casa é mais baixa, obrigando o escravo a se abaixar para entrar e assim reverenciar o coronel. Além disso, o local teria alguns grilhões, mostrando que é possível que aqui tenha tido escravos", conta Silvani Silva, professora e moradora do Assentamento Bela Vista desde 1989.  
 
MITOS E ASSOMBRAÇÕES
Além de histórias, a casa conta ainda com muitos mitos. Para algumas pessoas, o local seria assombrado pelos escravos que morreram no sofrimento, outros afirmam que o velho barão permanece no local, protegendo suas terras e impedindo que cheguem perto de seu tesouro, escondido nos fundos da casa.  "Aqui a gente não conta, a gente tropeça na história rural de Araraquara", diz Silvani. 
 
O local é repleto de mitos, mas, acima de tudo, preserva a história de uma velha Araraquara. "O casarão conta um pouco do passado rural de Araraquara. Um passado não tão distante, onde a maior parte das pessoas moravam na área rural. Aqui na casa morava uma tradicional família da época, que é a família do Antônio Joaquim de Carvalho. Uma de suas fazendas era a Bela Vista - hoje Assentamento Bela Vista e que naquela época contava com uma grande plantação de café. Araraquara era uma grande produtora desse café, mas na crise do café, a família Carvalho sente esse impacto e acaba vendendo suas terras. É nesse período que Mario de Andrade escreve uma ópera que chama-se Café, onde, em meio a crise econômica brasileira, ele afirmava que a tomada de poder tinha que ser por meio dos trabalhadores", conta.    

Coronel Antônio Joaquim de Carvalho
CHEGA A USINA
A cidade começa então a se reconfigurar. É nesse período que Pedro Morganti, que possuía o engenho Fortaleza, adquiri essas terras e transforma em terras para o plantio de cana de açúcar, trazendo muitos imigrantes, que se tornaram colonos na fazenda. "Aqui tinham italianos, húngaros e austríacos, aqui pouco se falava o português. Foi então criada a Usina Tamoio, com casas, escola e igreja. E até hoje, esse é a única colônia que continua em pé. É o único lugar que a gente pode contar fora dos livros, que a gente pode tocar e sentir onde pisaram nossos avôs", explica. 

Ao passar dos anos e a morte de Pedro Morganti, seus filhos acabaram vendendo a fazenda para um investidor chamado João Gordo, que acabou tendo problemas financeiros durante a crise da cana de açúcar.  

Sem pagar funcionários e os empréstimos feitos junto ao banco do Governo, a União acabou tomando as terras.   


Em meio a todo esse cenário, no ano de 1985, teve início em Guariba um grande movimento de boias frias, que vai desencadear a reforma agrária em nossa região e culmina na criação do nosso primeiro assentamento, o Monte Alegre. Em 1989, o assentamento Bela Vista, que já estava em processo de falência, acabou sendo ocupada por trabalhadores e o casarão que antes pertencia a um grande coronel, assim como anunciou Mario de Andrade, passou a ser habitado por boias frias, assim como as demais casas da colônia da Usina Tamoio". 

O Assentamento Bela Vista conta hoje com 203 famílias, que ocupam as casas da colônia, mas o velho casarão está desabitado.

Aqui tem uma história bonita e é de todos nós. O casarão é muito visitado, pois mantemos a festa junina no terreno de café ao lado do casarão, onde todo mundo bate o pé. As condições desse casarão mostram como todos nós tratamos o patrimônio histórico. Pois, se todos nós tivéssemos essa consciência, não deixaríamos ele chegar desse jeito. Nosso casarão está em ruínas, pedindo socorro, e nós precisamos cuidar dele. O próprio tempo está degradando o prédio e nós precisamos olhar e ter consciência histórica", ressalta Silvani.  

Silvani Silva conta a história do Casarão do Assentamento Bela Vista (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)

TOMBADO
O casarão pertence atualmente ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mas a Prefeitura de Araraquara vem tentando municipalizar o local.
No ano passado, o local foi tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Arquitetônico, Palenteológico, Etinográfico, Arquivístico, Bibliográfico, Artístico, Paisagístico, Cultural e Ambiental do Município de Araraquara (Compphara).  

De acordo com a Secretaria de Cultura, o município já cumpriu com todos os requisitos para transferência, mas até o momento o processo continua parado no INCRA.
Enquanto não houver a transferência, não há legalidade para a Prefeitura destinar recursos para a revitalização do local.    



VISITA
Mesmo em meio as ruínas, o casarão recebe muitas visitas. São olhares curiosos, que se impressionam com a beleza histórica do local. Olhares como do conselheiro tutelar e ciclista, Fagner Claro, que quase todos os finais de semana gosta de dar uma paradinha no local e tirar fotos.
"Eu gosto de ir no casarão por seu valor histórico e por sua beleza. Mas em relação as lendas, eu não acredito. Gosto mesmo é de pedalar aos finais de semana e para lá para tirar foto. Aquele cenário é muito bonito, tanto que já fizemos um clipe naquele local, que ficou espetacular", conta.  

Fagner e seus amigos aproveitam para dar uma paradinha e olhar a paisagem do local (Foto: Redes Sociais)
LENDAS
Mas foi uma lenda que fez com que todos os olhares virassem para o antigo casarão. Há alguns anos, Silvani tirou uma foto e algumas pessoas enxergaram um homem na imagem, que muito parecia com o velho coronel do café.

A partir dessa foto, muitos grupos passaram a explorar o local, inclusive um grupo intitulado caça fantasmas.
"Nós vimos sobre a lenda e decidimos vir até aqui. Viemos em um grupo de oito amigos e entramos no casarão por volta das 22 horas. Como estava escuro, ficamos juntos e iluminando tudo com uma lanterna, em busca do famoso fantasma. Quando viramos a lanterna para um canto do quarto, demos de cara com um homem. Levamos um baita susto, mas logo descobrimos que era um homem que morava ali. Leleco, como é conhecido por todos do Assentamento, dorme no casarão e é uma figura", conta autônoma Camila Martins.

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