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Um 'filme' araraquarense chamado Caçulinha

Aposentado mantém locadora de vídeo desde os anos 80; paixão por cinema e colecionadores de VHS e DVD impulsionam a loja

| ACidadeON/Araraquara

Caçulinha mantém locadora de filmes há 34 anos em Araraquara (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)


João Batista de Tódaro, de 79 anos, mais conhecido por Caçulinha, parece personagem de algum filme em VHS com roteiro original. Curioso e bom de papo, estudou em colégio de padre em São Carlos antes de se apaixonar pelas telas e abrir uma das primeiras locadoras de vídeo em Araraquara, em 1986.

O apelido era do seu pai, famoso vendedor de bilhetes de loteria da cidade, e ele acabou "herdando" apesar de ser o mais velho dos três irmãos. O nome da locadora foi uma homenagem ao seu querido pai. Antes eles tiveram uma lotérica também.  

"Era tão gostoso ir na locadora, era um ponto de reunião onde as pessoas falavam de cinema, trocavam e batiam um papo legal. Infelizmente tudo isso acabou, era tudo muito romântico. Filmes dos anos 50, 60...até dos anos 40", lembra nostálgico. 

Ele começou criança aprendendo sobre a sétima arte, fuçando em revistas de cinema. Na juventude, já estava passando filmes para distrair as crianças  enquanto seus pais estavam na missa. Depois disso, costumava projetar filmes em super 8 (filmes de 18 minutos), frequentava cineclubes, foi sócio do cinema em Santa Lúcia e arrendou o de Américo Brasiliense. Mas o seu negócio mesmo estava por vir.

"Desde criança sempre mexi com filmes. Antes eram muito ruins as cópias e fui atrás pra entender. Comecei com nove fitas de VHS, e aí fui indo, não tinha filme original selado, eu conseguia umas cópias que eram muito boas, e fui incrementando", conta.   

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ÉPOCA BOA 
A locadora era no andar de cima de onde a loja está hoje, na rua Padre Duarte (rua 4). Caçulinha tinha cerca de 10 funcionários (entre a lotérica e a locadora) que se revezavam para atender o frenético público, ávido pelas novidades em VHS e também em DVD.  

Caçulinha recorda da loucura que eram aqueles tempos áureos da locadora. Segunda-feira geralmente era dia de devolução dos filmes alugados no final de semana e o movimento era intenso. 

"Era uma loucura na segunda, um monte de funcionário pra atender e não dava conta. Tinha que rebobinar as fitas e muitos não rebobinavam, não sabiam como fazer, aí a gente cobrava acho que era 50 centavos", lembra rindo. 

Hoje ele está aposentado e trabalha sozinho. Amigos e colecionadores frequentam muito o local atrás de papo e raridades. "Tenho bons clientes que são colecionadores que não trocam os filmes pela TV paga. Quem me mantém são esses perfis de pessoas", diz.  

Os DVDs custam em média R$ 5 reais, além dos VHS, que são bem "baratinhos", como ele mesmo diz. "A tecnologia avançou mas nada é de graça (diz em referência aos filmes pay per view ), hoje vendo filmes bem baratinhos, se pegar só a caixinha e capinha já sai mais caro. Eu fui o primeiro aqui a ter loja de filmes e estou sendo o último a ter loja", reflete.   

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O CURIOSO SUMIÇO DO FILME "O CHARRETEIRO"
Muitos não sabem, mas o cinéfilo aposentado chegou a escrever um roteiro coletivo e fez um filme documentário chamado "O Charreteiro", rodado em Araraquara. O filme contava, de forma um tanto experimental, sobre uma profissão extinta e tinha a trilha sonora da cantora Inezita Barroso. Era a época auge do cinema novo nos anos 60, com muitas experimentações e possibilidades na telinha brasileira.  

Caçulinha lembra que o filme chegou a sair em matérias de jornais importantes de São Paulo. Mas segundo ele, infelizmente, a única cópia que possuía foi doada na época para a Casa da Cultura, e sumiu misteriosamente. Só há lembranças em sua memória visual.  

"Eram 20 minutos de filme, participamos de festival, várias coisas foram feitas propositalmente com duplo sentido e foi muito comentado na época. Mas quando eu doei a única cópia para a Casa da Cultura aqui de Araraquara sumiu misteriosamente . Nunca mais acharam, ficou um mistério", suspira.

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