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cotidiano

Na linha de frente, coletoras relatam o dia a dia em Araraquara

Araraquara é referência na região em coleta seletiva e as mulheres maioria das trabalhadoras

| ACidadeON/Araraquara

 

 

Jane (a frente) coordena equipe da Coleta Seletivaem diversos bairros de Araraquara (Foto: Amanda Rocha)

Coooleeeeta, cooleeeta! Se você mora em Araraquara já deve ter ouvido as vozes das mulheres da Coleta Seletiva pelas ruas da cidade. 

Em período de isolamento social e home office, estamos produzindo muito mais lixo por estarmos em casa. Imagine ficar sem coleta seletiva de lixo reciclável ou convencional? Caos. 

As incansáveis coletoras de material reciclável da Cooperativa Acácia são trabalhadoras da linha de frente da pandemia e fazem um serviço essencial para a comunidade. 

De segunda-feira a sábado, das 8h às 17h, elas transitam com seus bags recolhendo e reciclando o que descartamos. 

Cerca de 90% são mulheres, arrimo de família e mães solteiras. Elas encaram todos os riscos do trabalho: o medo da contaminação por covid, roubo de material, assédio e ainda a falta de consciência de alguns moradores que não usam máscara. 

Essas trabalhadoras não estão em grupo prioritário de vacinação contra a covid-19 e enfrentam todo dia o medo de serem contaminadas. 

A coordenadora de Coleta Seletiva Jane Alexandre Pereira, de 46 anos, trabalha há oito anos na cooperativa, e relata o medo de ser contaminada e levar o vírus para a casa. 

"A gente corre todos os riscos de sermos contaminadas, seja na rua, lidando com pessoas e hábitos diferentes , ou até mesmo no transporte público. Voltamos pra casa todo dia com medo de levar o vírus pra dentro mesmo tomando todos os cuidados possíveis, afinal somos mães e pais de família. Não vejo porque de não liberem a vacina para todos os coletores", expõe. 

MAIS RESPEITO E CUIDADO
Outro obstáculo apontado é a falta de consciência de alguns moradores que jogam as máscaras descartáveis e muitas vezes contaminadas- no lixo reciclável. 

O correto é descartar a máscara diretamente na lixeira do banheiro, ou embalar em saco plástico e colocar junto ao lixo orgânico comum. 

As máscaras não devem ser misturadas com materiais recicláveis. Caso a pessoa esteja infectada, é importante identificar o lixo com aviso de "risco de contaminação". 

As coletoras também comentam que há pessoas que não respeitam o uso de máscara, e querem "bater papo" na hora da coleta. 

Ana Paula de Souza é uma das coordenadoras da Coleta Seletiva, tem 41 anos e trabalha desde os 23 anos na Cooperativa Acácia. Ela é mãe solteira, tem quatro filhos pequenos e é quem sustenta a casa. 

Para a coletora, a população precisa ter mais consciência da gravidade da pandemia e das noções básicas de higiene, além do cuidado com o próximo. 

"Na pandemia nem toda população ajuda a gente, encontramos muitas máscaras descartáveis no material reciclável. Tem pessoas que vem entregar a coleta sem a máscara, pessoas que estão contaminadas e mesmo assim entregam o lixo pra depois que entregou falar que tem casos na casa", desabafa. 

Há 16 anos Giovana Regina Padovani trabalha como coletora e tem passado por algumas situações. Ela cobra mais consciência das pessoas.  

"Somos do trabalho essencial e corremos muito risco, as pessoas devem ter mais consciência. Um morador esses dias colocou a coleta pra fora da casa e gritou não pega porque essa coleta está com covid, mas depois que eu já tinha pegado a caixa", expõe.  

Giovana Padovani (dir) pede mais consciência a moradores que jogam material contaminado no lixo (Foto: Amanda Rocha)

Ela mora com a mãe idosa, um filho e marido. "Acho que as pessoas poderiam escrever algo na caixa ou nem colocar pra fora se está contaminado, seria o certo. Tenho que tomar muito cuidado por meus familiares", aponta. 

DESAFIOS DIÁRIOS
As trabalhadoras comentam que fora o contexto de riscos da pandemia, há também os desafios climáticos com chuva e sol, a falta de banheiros públicos e o aumento dos catadores avulsos nas ruas devido ao desemprego.
Esse último fator gera tensão entre elas, pois alguns catadores são mais agressivos, roubam os bags e material coletado. 

"É só sentindo na pele pra saber das dificuldades que a gente passa e com essa pandemia com esse vírus tudo ficou pior, em todos os sentidos. Já fomos agredidas, ameaçadas com facas, enfrentamos o assédio também de homens, gestos obscenos . Enfrentamos a sede, a falta de banheiro público", conta Jane. 

Com o lockdown dos últimos meses em Araraquara - devido ao combate a transmissão do coronavírus - estabelecimentos comerciais ficaram fechados e os horários de ônibus reduzidos. 

Elas sentiram bem essa mudança. "Complicou o horário dos coletivos, saímos mais cedo e voltamos bem mais tarde pra casa", diz.

SOMOS GRATAS
Apesar das dificuldades, elas amam o que fazem e são gratas pelo trabalho. A Cooperativa Acácia sempre fornece máscaras, luvas e álcool em gel para as trabalhadoras. 

"Conviver com esse medo todos os dias não é fácil mas agradeço por estar trabalhando e termos nosso sustento em vista de tantas pessoas passando dificuldade pra comer, então eu saio feliz por ter um emprego e receber por ele", frisa Jane. 

Paula reforça que a grande maioria sustenta a casa e embora tenham medo não podem parar de trabalhar.
A gente tem que trabalhar, somos arrimo de família, somos mães solteiras que cuidam dos seus filhos e com medo ou não temos que continuar", pontua.


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