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Tesoura e coração: a história da cabeleireira Rosa de Sá

Cabeleireira atende moradores em situação de rua há 16 anos em Araraquara

| ACidadeON/Araraquara

A cabeleireira Rosa de Sá atende moradores de rua há 16 anos (Foto: Amanda Rocha)

O salão da cabeleireira Rosa Maria de Sá, 45 anos, é pequeno, mas seu coração e atitude são enormes. Há 16 anos, a cabeleireira veio de Rondônia para Araraquara e se estabeleceu na Rua Carlos Gomes, próxima a rodoviária. 

No local, muitos moradores em situação de rua passam e costumam pedir um trocado. Ao invés disso, Rosa oferece cortes de cabelo, barba e consequentemente a autoestima elevada. 

"Geralmente eles chegam aqui pedindo dinheiro ou qualquer coisa, e eu ofereço um corte, é difícil ter alguém que corte os cabelos deles. Eu os deixo escolherem o corte também, já que estou oferecendo, eles escolhem como querem", conta. 

AMIZADE
Ela corta cabelo dos moradores desde que montou o salão. E Rosa oferece muito mais que um corte. Boa de papo, a cabeleireira adora escutar as histórias de vida de cada um deles e se torna uma grande amiga.

Já ajudou vários a saírem da situação de rua através de seus conselhos e talento com a tesoura.

"Eu adoro ouvir as histórias e acaba virando amizade. Não tenho só interesse em cortar cabelo por cortar, eu quero falar algo positivo para eles, hoje estou aqui amanhã posso estar no lugar deles. O ponto forte de cortar cabelo de morador é que eu gosto muito de escutar eles, pois não estão inventando, vem pra se distrair e acabam abrindo o coração", aponta.  

Rosa conta que uma das principais queixas dos moradores é não ter local para tomarem banho. Quando ganham um corte se sentem mais valorizados e a felicidade toma conta.

"Eles chegam aqui parecendo que tem bem mais idade do que realmente tem e saem muito felizes. 90% dos moradores são homens, mas as vezes corto cabelo e faço a sobrancelha de mulheres também", diz. 

Muitas vezes eles voltam querendo pagar a cabeleireira com valores simbólicos que conseguem durante o dia nas ruas, ou até mesmo levam marmitex para ela. "Eu não aceito mas eles sempre insistem em me pagar, seja R$5 ou R$ 10. É uma satisfação para eles, me emociona", diz. 

HISTÓRIAS DE EMPATIA
Rosa diz que infelizmente muita gente julga e enxerga os moradores como pessoas sem caráter. Mas lembra de que a maioria possui família e uma história de vida. 

Ela já conheceu pintores, professores, químicos, metalúrgicos, entre vários outros, que caíram no vício das drogas, álcool, depressão ou desilusão. 

"Eu sempre dou conselhos, pergunto o que eles faziam antes de estarem na rua, para ver se posso indicar eles para alguma coisa, loja, amigos", aponta. 

Uma das histórias que mais marcou ela foi a de um jovem pintor. Ele acabou conseguindo um emprego em uma obra após indicação de Rosa, e voltou seis meses depois para agradecer a cabeleireira-amiga. 

"Ele era novo, bonito, mas estava acabado pela vida nas ruas. Eu cortei cabelo, tirei a barba e ele ficou muito feliz. 

Depois de uns 6 meses ele voltou aqui e nem reconheci. Ele veio me agradecer, estava totalmente diferente, limpo, todo arrumado. As vezes eles só precisam de uma palavra, um incentivo", lembra. 

Hoje, o ex-morador de rua traz outros moradores para Rosa cortar o cabelo, além do ombro amigo. 

"A maioria está na rua devido ao vício de drogas e a família não sabe lidar, pedir internação, medicação. A maioria das pessoas não são compreendidas e não estou defendendo quem usa drogas, mas a família muitas vezes acha melhor colocar para fora do que procurar ajuda. Falta amor", reflete.


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