Depois de agressões, moradores de rua ganham emprego e vão embora

Magrão e Nanico foram contratados pelo proprietário de um sítio e devem se mudar para a zona rural

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    • Willian Oliveira
ACidade ON - Araraquara
Magrão e Nanico foram agredidos na Praça do Faveral, em frente a geladeira comunitária (Colaboração Ednan Dalle Piagge)


Magrão e Nanico podem ter dormido pela última vez na Praça do Faveral. A dupla de moradores de rua recebeu uma oferta de emprego e, em breve, os dois devem deixar o espaçio para viver em um sítio.

O trabalho será semelhante ao que eles estavam desenvolvendo na praça, voluntariamente. Serão responsáveis pela jardinagem da propriedade e de funções relacionadas ao campo.

Os dois ainda se recuperam das agressões sofridas na madrugada da última quarta-feira (15). Eles apanharam por defender a Praça do Faveral de um grupo de usuários de drogas que pretendiam quebrar as lâmpadas da praça para se aproveitar do escuro e fugir da fiscalização da Polícia Militar (PM) e da Guarda Municipal. Além de socos e pontapés, os suspeitos usaram uma tesoura e um facão para atingir as vítimas que precisaram de atendimento médico na UPA.

Magrão e Nanico começaram a cuidar do espaço depois que a geladeira comunitária foi instalada em uma padaria na Rua Henrique Lupo, na Vila Harmonia. A iniciativa surgiu como agradecimento às pessoas que todos os dias enchiam as prateleiras do eletrodoméstico.

Luiz Carlos Leonardo Sobrinho, o Magrão, foi quem incentivou os colegas a retribuir. “Nós sempre erámos incomodados pela PM ou pela Guarda Municipal. Depois da geladeira eles perceberam que nós não fazemos mal pra ninguém e nos tratam com respeito. Todo dia ganhamos rouba, mantas, cobertores, marmitas então o mínimo que nós podíamos fazer era isso”, disse ele em recente entrevista ao portal A Cidade ON Araraquara.

A geladeira, aos poucos, ajudou a mudar a vida de muitos outros moradores de rua. “Eles todos têm histórias de vida muito tristes. Todos são alcoólatras. Um bebe para esquecer que o filho morreu, o outro porque perdeu a mulher, tem gente que perdeu o emprego e não conseguiu mais manter o aluguel. Com a geladeira eles passaram a beber muito menos porque eles estavam se alimentando bem”, disse Ednan Dalle Piagge, dono da padaria onde ficava a geladeira comunitária.

A mudança de comportamento fez até com que a família dos moradores voltarem a se aproximar. “Eu fico feliz em saber que a vida deles ganha um novo sentido a partir de agora. De tudo que aconteceu, talvez essa seja a melhor parte”, disse Piagge.

Geladeira foi retirada e bairro se mobiliza

Por medo que algo pior aconteça aos moradores de rua Ednan tirou a geladeira de frente da Praça do Faveral na semana passada. “Foi com dor no coração que eu fiz isso. Uma mulher com a filhinha de sete meses saiu daqui chorando porque veio buscar alguma coisa para matar a fome e saiu daqui sem nada. Imagina se amanhã ou depois aparece alguém e mata essas pessoas aí na praça?”, questiona Piagge.

O empresário faz questão de deixar claro que os moradores de rua e as pessoas carentes não tem nada a ver com a decisão. “Essas pessoas são educadas, respeitosas, tem gente que nem abre a geladeira, pede para eu ou minha mãe abrir. O problema é que a praça está dominada por filhinhos de papai que destroem tudo e a culpa sempre cai nas costas dos moradores de rua”, conclui Ednan.

Na manhã de ontem (19), dezenas de pessoas foram à Praça do Faveral cobrar mais segurança no local. Na reunião, que contou com cerca de 30 pessoas, ficou decidida pela criação de um grupo que atuará e ajudará no transporte dos alimentos – muitos deles doados por restaurantes – até a geladeira comunitária.

Os moradores também querem que o poder público dê maior manutenção na área verde ou que forneça autorizações para que a própria comunidade possa fazer a poda do mato alto. O dono de um quiosque no local se ofereceu até a utilizar seu sistema de segurança privado para instalar mais câmeras para vigiar a praça.

O que diz a prefeitura

Em nota, a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social disse que através de sua equipe de abordagem social, acompanha e monitora as pessoas em situação de rua. O texto enviado pela assessoria de imprensa diz também que “no caso do local em questão, nem todos que se identificam como moradores em situação de rua, realmente são”.

Em relação à segurança, a Guarda Municipal informou que faz rondas periodicamente no local e sempre que necessário aborda os usuários da praça.

A Prefeitura de Araraquara encerra a nota dizendo que “apoia toda e qualquer iniciativa da sociedade civil que tem como objetivo contribuir com uma sociedade mais igualitária, mais solidária e humana”. 


2 Comentário(s)

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Deizy

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A Polícia precisa agir na praça, é isso que precisa ser feito. É um horror essas atitudes que acontecem...coisas simples...um morador de rua que limpa uma praça por conta que está sendo ajudado com alimentos de uma geladeira comunitária e é espancado por indivíduos que tem dinheiro ou sei lá como conseguem. Lembrando que..as pessoas que tem dificuldades com alimentos, tem também, as igrejas, casas espíritas, tem a casa da sopa próxima ao shopping jaraguá. Talvez outras, que eu não saiba.

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Anderson

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A prefeitura sempre vem com esse discurso, mas todos sabem que não é bem assim. Se quiserem dá dá para ajudar esses moradores de ruas e também investir em todas as áreas prioritárias, como educação, saúde, infra estrutura e saneamento básico e segurança. Basta vontade. E dinheiro tem, é só acabar com todos os cargos comissionados, baixar os salários de vereadores e do prefeito. E investir bem o dinheiro público. Chega de conversa, o povo quer ação.